Escritores proletários, literacia, conversas de panelas e outras coisas da democracia

Vinha sentido com a mulher, a irritante e irritada “kjerringa” que só o culpa e se queixa; nem sempre sabe bem porquê ou de quê. No pequeno apartamento no centro de Oslo, vou ouvindo e rindo ao mesmo tempo. Temperamento feminino, vou dizendo e desculpando a pobre…, nada a fazer, todas assim.

Sobre a mesinha o livro de Ivar Lo-Johansson, e a versão norueguesa da história da conversa sobre a panela estalada: Samtal om en gryta (o título original em sueco) do livro de novelas de 1941, o Jordproletärerna : berättelser. Pergunto se conhece a história da mãe (em português diríamos tia) Gottlund que tenta acabar o guisado de carne numa panela de ferro estalada; enquanto, impacientes, o marido agricultor e os quatro filhos esperam pelo almoço. A discussão instala-se, chovem queixas ( várias páginas delas) e impropérios da mãe Gottlund sobre o marido que se vai defendendo o melhor que pode da inconveniência da panela estalada, e sempre a mesma há um rôr de anos.

O pobre «proletário da terra» ouve, ouve, riposta, e finalmente perde a paciência. Rapa o pobre Gottlund do dinheiro para uma panela nova, coisa que imagina pôr um termo à discussão e alarido. Engano dele.  Ela não aceita, o argumento que aquela serve bem. Não serviu estes anos todos? De qualquer forma está para se dar ao trabalho de ir agora usar uma panela nova, tem que se curar (impregnar de gordura) primeiro.

Lê aquilo e ri, diz que vai copiar o conto e afixar lá em casa. É tal e qual! Mirando o livro, tu ainda lês os escritores proletários? Meio desgostoso,…já ninguém lê os proletários.

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Vou lendo, e especialmente, umas páginas de Wilhelm Moberg de que muito gosto e a que volto frequentemente. Do livro «Relatos da Minha Vida» publicado em 68 (um ano antes desta versão norueguesa da  Cappelens), deste capítulo « os livros na minha vida», uma maravilhosa descrição da utilidade da e atracção pela leitura:

«Li para alcançar para lá das minhas próprias fronteiras, para lá da minha condição, da minha experiência limitada e parcial, da monotonia do meu dia-a-dia, do repetitivo e cinzentismo inseparável dos meus dias. Li porque preciso fertilizar-me nos pensamentos de outrém, buscar estímulo na fantasia alheia, participar na vida dos outros – muito simplesmente, busquei experiências que iam além das minhas. Ler tem sido viver com a alma dos outros. Refiro a ficção e as grandes auto-biografias. Estive com eles, vivi a seu lado, fui seduzido por eles, com eles me alegrei e com eles sofri. Sim, atrevo-me a dizer: vivi  com eles até à identificação. Quando a leitura é uma experiência arrebatadora implica sempre uma forma de identificação com as pessoas dos (nos) livros. »

A título de curiosidade, página de onde se traduz a trouxe-mouxe:

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Moberg, que, trabalhador florestal aos quinze, lia no beliche ao fim do dia, (referi-o aqui e ao seu trecho do mar de feno) advogaria sempre a leitura livre. Liberta de autoridade, não orientada. A leitura como identificação. Cunhou, num artigo do Dagens Nyheter em 1965 o termo Demokratur. Insurgindo-se contra uma tutela intelectual elitista que corrói as virtudes e os sentimentos de igualdade da democracia.

Trago estes velhos alfarrábios nórdicos à colação por causa de dois posts, ou de parte deles. O primeiro, no blog Ladrões de Bicicletas. Ali se expõe (e acertadamente) o papel de líderes políticos e do economista Gunnar Myrdal na construção de uma sociedade igualitária. O passado é um país que fica lá em cima. Mas esse papel, essa influência vertical de cima para baixo de pouco vale sem a influência horizontal. A “identificação”, de que fala Moberg. Nesse sentido (o de Moberg) o passado é um país que fica ao lado.

Chamo a atenção para um quadro de um blog nem por sombras esquerdista que aqui tomo de empréstimo. Este, sobre a alfabetização tardia do sul:

Sociaisdemocraciasnórdicas àparte, questões de direita ou esquerda, se pensarmos em termos de sociedades igualitárias, de democracias (tendencialmente) transparentes, justas e estáveis, de bem estar-social, elas coincidem (grosso modo) com o desenvolvimento da alfabetização e as diferenças que o gráfico expõe. Dentro de um mesmo país (a Itália), evocam as conclusões de Robert Putnam  em Making Democracy Work: Civic Traditions in Modern Italy. Diria até que, com o desenvolvimento de hábitos de leitura, de consumo de literatura. O processo mais eficaz que se conhece de transmissão horizontal de conhecimento e empatia. De prevenção de autoritarismo.

Faz todo o sentido a frase de Carlyle de um post abaixo: «Literature is our Parliament too.» Coisa que raramente ocorre ao Zédaesquina e não passaria pela cabeça a Cavaco; ou a frau Maria Luís dos Cofres Cheios.

 

Sobre soliplass

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