A igualdade de género e essas coisas

Passado que foi o dia da mulher, esqueci-me de aqui deixar comemoração e declaração de que sou a favor de quotas e da igualdade de género. Um rapaz modernaço, em suma.

Quando há vinte e cinco anos vim trabalhar para a Noruega, na companhia havia a política (justa) de igual salário independentemente do género. Com as colegas norueguesas nem houve grande problema. Com as portuguesas a coisa piava mais fino: poucas houve que não fossem assaltadas de um sentimento súbito de superioridade em relação a nós, os seus colegas nacionais. A igualdade sofre deste tipo de acidentes: é boa, no geral, apenas enquanto a desigualdade nos prejudica. Quando deixa de nos prejudicar, a desigualdade passa, de ordinário, a fazer parte da ordem natural das coisas.

Passou um intervalo de doze anos até que tivesse necessidade de baixa médica. Em Janeiro último por um par de dias. Tinha deixado de ir ao médico de família após um episódio traumático no centro de saúde da cidade quando necessitei, há doze anos já, de baixa médica, e dos necessários impressos enviados para a segurança social norueguesa. Após uma fortuna gasta em telefonemas de Portugal para a Noruega, sempre com a mesma informação de que os formulários não tinham sido recebidos, dirigi-me já pela quarta vez consecutiva aos serviços. A funcionária já irritada, vai lá dentro e expõe o caso à chefe. Pergunta a bicha (feiíssima, as rugas do cachaço qual montra de ourivesaria, tal o número de cordões e penduricalhos) de lá: «Mas quem é esse sujeito afinal? Não sei cá de papéis nenhuns!» Responde a do guichet lá dentro: «Sei lá!… é um desses embarcados!»

No outro dia, às nove, logo no início do expediente, a directora regional da Segurança Social, instada a isso por parte do ministério que a tutelava recebia-me no seu gabinete com cafézinho servido e tratamento por dôtor. Interessadíssima no meu estilo de vida, ai que giro, por dentro roída e contrariada. Raras vezes vi criatura mais feia, batráquio gelatinoso. Coisa falsa que imaginamos de vida a destilar ódios e intrigas. Mas eficiente. Os impressos chegaram ao destino em poucos dias.

Dia passado na floresta, passo também por divertimento num velho poema de Hans Børli. O «Na Floresta», do livro de 1957, Kont-Jo. Poema irónico, cheio de jogos de linguagem, que assegura aos companheiros de trabalhos florestais que a vida ao ar livre é saudável – ou assim vinha no jornal – e que ali terão vida longa… e expressões de  encorajamento  “Slip øksa, Muru-Martin” «Afia a machada, Muru-Martin» “Fil saga, Haltdals-Peter” «Lima a serra, Haltdals Peter», acaba na última quadra por atestar que na floresta temos estado e na floresta ficaremos; enquanto as costas aguentarem pendurado o peso do cu.

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Já no fim da vida, escrito num dos seus cadernos publicados a título póstumo (referi-o aqui, o Tankestreif), havia um texto meio pessimista onde o poeta usa também a palavra «cu». Diz, ou sustenta, que… poucas vezes na vida damos de caras com o sorriso enigmático da esfinge: frequentemente, isso sim, com o buraco do cu.

Continuarei, pela vida fora, a favor da igualdade de género, de quotas, em caso disso. Apesar do episódio das senhoras da segurança social, e de outras como elas, da experiência com as minhas superiores colegas portuguesas no emprego, umas e outras pouco esfíngicas e dadas a sorrisos a quem consideram inferior ainda que igual; que frequentemente me lembram o aforismo de Børli. Nesta coisa da igualdade de géneros e das cotas, e do papel cada vez mais importante da mulher na sociedade e no trabalho e na política, é como nos comboios. Inventado que foi, logo por acréscimo vem inventado o descarrilamento. Há que viver com isso. A menos que se tenha jet privado ou limusina à porta…

Sobre soliplass

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