Anna ao sol

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Trouxe-a hoje à esplanada em praça meridional (à praça Sá da Bandeira ou praça do Seminário em Santarém) a apanhar sol. Anna. Anna das terras despovoadas. Anna Widén. Nascida a 4 de Fevereiro de 1890 em Næroset, Ringsaker, falecida a 17 de Maio de 1973. Anna i ødemarka, como os seus a conheceram através do livro biográfico da autoria de Dagfinn Grønoset. Anna das terras desoladas, na tradução do título da sua história em francês «Anna des terres désolées». Norueguesa, nascida em família pobre, posta a servir pelos pais ainda criança pelas quintas das redondezas, casada com um vagabundo com quem calcorreou os caminhos do vale central e oriental, sustentando-o com trabalhos de sísifo, passando miséria indescritível, finalmente vendida pelo marido (Karl -comprido) num dia de Abril de 1928 aos proprietários da quinta de Haugsetvolden. Por trezentas coroas.

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Traduzindo a primeira página do relato de Grønoset:

« – Fui vendida a Haugsetvolden. O meu marido recebeu 300 coroas por mim.

Anna de Haugsetvolden nunca pensou em contar isto, não pensa que diga respeito aos outros. Mas notou muitas vezes que provavelmente as pessoas sabiam algo sobre o que se tinha passado. Depois de ter ficado sozinha em Haugsetvolden e de já não ter ninguém com quem se preocupar, já podia falar abertamente sobre o que que tinha acontecido. Estava disposta a pôr todas as cartas na mesa, contar tudo sobre si e a sua vida em Haugsetvolden.

Um dia de Abril em 1928 Anna veio desaguar ao lago gelado de Haugsetvolden, esgotada de muitos anos de errância e deambulação, principalmente pelos vales de Gudbrandsdal e Østerdal.  Não tinha praticamente com que cobrir o corpo, a comida nos últimos dias tinha sido pouca ou nenhuma.

Em Haugsetvolden havia cinco pessoas que precisavam dela. E quando Lang-Karl (Karl-comprido), com quem Anna era casada na altura, se mostrou inclinado a vendê-la, acertaram os termos do negócio.»

É de dizer que o agricultor que a comprou, o fez mais por piedade que por outra coisa. No dia anterior à compra, dando com ela naquele estado de miséria, abrigada numa barraca da sua propriedade tinha-lhe dito para ir ter com ele à quinta. Que não podia continuar a viver assim, ou fatalmente morreria a qualquer momento. Ali, na quinta da família que a tinha comprado, Anna encontrou finalmente um propósito de vida. Aquela gente precisava dela. Em Haugsetvolden  passou o resto dos seus dias, numa vida de trabalho árduo e constante, cuidando dos que lá viviam até ao fim dos seus dias, ficando por fim sozinha, dona e senhora da propriedade isolada, a 16 km do vizinho mais próximo.

Anna não se arrependeria da decisão de ficar e cuidar dos que dela dependeram. Di-lo no filme (parte II do vídeo ao minuto 2: 23, na parte I, ao minuto 6:18 conta como foi vendida) que mostra a propriedade e as redondezas. Viria a ser condecorada pelo rei ainda em vida, por serviços prestados, a sua história trouxe o país comovido. E o livro de Dagfinn Grønoset, publicado em 1972, um misto de reportagem e biografia, viria a ser um sucesso de vendas na Noruega, traduzido depois em 15 idiomas. Este:

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Como aconteceu (e infelizmente acontece) na vida de tantas outras mulheres, Anna reflecte sobre as razões que a levaram a suportar toda aquela miséria extrema ao lado do marido Lang-Karl. Por palavras suas, que traduzo da p.25 desta primeira edição:

«Pensei frequentemente porque razão nunca consegui reunir a coragem para abandonar Lang-Karl. Muitos me questionaram também a esse respeito. Não tinha outra coisa a responder que não fosse que, desde a minha infância, estava habituada a obedecer. Não sabia o que fosse a auto-confiança, nunca me atrevia a discordar ou opor-me. De ordinário fazia aquilo que me tinham dito que as pessoas à minha volta esperavam de mim. Nunca tive um rumo ou uma vontade.»

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Sobre soliplass

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5 respostas a Anna ao sol

  1. Muito interessante. Gostava de saber porque são os nórdicos tão bons a recordar as misérias, enquanto os portugueses são tão bons a esquecê-las. Há uns anos, nos arredores de Trondheim (não sei como se escreve), uma mulher de meia-idade que mal conheci contava-me que o avô andava quilómetros descalço na neve para ir à escola. Aqui, no Alentejo, dizia alguém no twitter que a sua avó levava pancada do patrão. Parece que não era incomum, imagine-se. Alguém sabe disto? Foi a primeira vez que li tal coisa. Suspeito que em Portugal a miséria está próxima demais, é dolorosa demais, e que isso gera fenómenos de alheamento, como quando estamos a recuperar de uma longa doença e só desejamos não ouvir falar dela. Mas deve ser mais do que isso. Hoje estava a ler o Eduardo Pitta a dissecar um romance sobre “a nova emigração”, em que a coisa é empratada, segundo ele diz, sem qualquer referência ao contexto, à necessidade, como se todos tivessem “um sonho” de emigrar. Não sei se é verdade, porque não conheço o livro, mas pelo que tenho lido em português é certamente verosímil. Esta alienação intencional, este evitamento é um grande mistério para mim. Espero que isto não vá outra vez parar ao spam.

  2. soliplass diz:

    Isso é uma excelente pergunta. Creio que terá a ver com o facto de no geral os povos nórdicos viverem há muito tempo em regimes políticos não opressivos, e gozarem já há muito tempo de uma elevada taxa de literacia. É natural que só por essas duas razões já sejam mais receptivos à história e sofrimento alheio. Há a experiência comulativa de que este tipo de história encontrará audiência. Como neste caso em que foi um sucesso de vendas.

    Quanto a nós, talvez não sejamos assim tão bons a esquecê-las quanto a ter o cuidado de não as contar. Creio que são hábitos antigos, enraizados. Parte disso dever-se-à certamente a termos vivido durante longos períodos debaixo de regimes políticos opressivos. Recorde-se que Soljenitsine apontava como grande crime soviético o ignorar do sofrimento e desgraça alheia. O que chamou a «traição como forma de existência». A página do seu Gulag onde isso é verbalizado: https://ancorasenefelibatas.files.wordpress.com/2011/11/imagem-269.jpg . Mas se ler o ”Lettres de Russie; la Russie en 1839″ do Marquês de De Custine sobre a vida sob o regime czarista, o panorama (de indiferença) é semelhante.

    Tomar parte pelos mais fracos é sempre uma afronta aos poderes instituídos. De qualquer forma, isto parece ser vício ibérico antigo a julgar pelos concelhos do Jesuíta do Sec. XVII Baltazar Garcián. No seu “Oráculo Manual Y Arte de Prudencia “(http://www.biblioteca.org.ar/libros/131939.pdf) aconselha:

    “Acércate al que sabe triunfar y desecha a quien tiende a fracasar. (31)

    La infelicidad es en ocasiones causada por la torpeza de quienes nos acompañan. Nada se contagia más que el fracaso. Nunca abras la puerta al que le salen las cosas mal, pues tras él vendrán a ti muchos y mayores males, que siempre andan como aves en bandada. La mejor forma de juego es saber descartar. Más te favorece hacer alianza con quien sea una pequeña carta de triunfo que una grande cuyo éxito decayó.” […]

    ” Nunca te quejes.(129)

    El que se queja se desacredita. Es más probable que quien te escucha se moleste en vez de consolarte. Además, tu queja hará que otros también lo hagan, y luego la culpa por todas las quejas te será echada a ti, por haber sido el primero en hacerlo. Tampoco te quejes por tus males del pasado, pues dará pie a que conozcan tus debilidades, y eso sirva para producirte nuevos males ahora.” [….]

  3. Bem, a literatura oportunista está bem representado em qualquer país do Ocidente, desde as cartas de Lord Chesterfield a Castiglione, a metade dos franceses que escreveram antes ou depois da Revolução. Le meilleur moyen de s’etablir dans le monde c’est d’y paraitre dejá établi, dizia um turista que cito de memória com imensos erros ortográficos. Não é preciso malhar nos ibéricos para chegar aos portugueses, como você gosta de fazer nesses arremessos estrangeirados. Agora a literacia, a democracia, e tal: há tanto disso na Europa, e tão pouca compaixão. Mesmo entre os nórdicos, com aquela petite tentação higienista. Julgo que a explicação, ou o molho delas, não pode estar só aí. Há um realismo profundo, uma noção de que estamos todos no mesmo barco, que não provém de saber recitar textos edificantes. E esse, para mim, é o mistério.

  4. Já agora: uma chave, que talvez nos ajude, encontrei-a na Austrália. Ninguém destratou tanto os aborígenes, que foram limpos na Tasmânia até ao último homem. Mas se lá for agora encontra discursos polidos, remorsos em barda, imensa gente que quer “apreender com eles”. O que não impede o bendito governo de colocar o boat people em campos de concentração. O arrependimento chega longe, mas tem limites.

  5. soliplass diz:

    Também não sei, muitas vezes, os porquês das coisas serem assim. Certamente por serem um produto de muitas causas. Uma delas será também a consciência de um inimigo comum: o clima impiedoso que a todos ataca por igual, ou como vc escreve ” uma noção de que estamos todos no mesmo barco”. Coisa que nós os meridionais não temos. Por exemplo, há uma constante relevância dada nos jornais nacionais ou locais sempre que alguém desaparece numa montanha e são necessárias operações de busca, uma avalanche, um desmoronamento, uma cheia.

    Outra coisa que não cessa de me admirar (pelo menos no caso norueguês) é a pouca importância que dão às questões de forma na hora de escrever. Coexistem dezenas de dialectos, cada qual quase que escreve sobre o que lhe interessa como quer. Sem que lhe caia “o carmo e trindade” em cima. Aqui uma coisa dessas é quase impossível, dado o nosso apego às questões de forma.

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