Tove ao sol, coisas luminosas

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Os dias, nesta rectangular máquina de perder tempo à beira mar plantada, dissipam-se em “dar com os burrinhos na água”, “bater com o nariz na porta”. Ontem, manhã de fazer cem quilómetros para nada (faltava uma caderneta predial actualizada), desperdiçar parte da tarde a obtê-la. E hoje, manhã bonita de sol, mais cinquenta para ir à médica de família pedir o receituário para comprar a medicação costumeira da minha mãe. Nariz na porta novamente. E o decreto em papel A4 informando os ignaros que a consulta semanal da sede de freguesia tinha sido cancelada. Que só no Centro de Saúde em cascos de rolha… Por aproveitamento do sol matinal, visão de papoilas e cheiro de orégãos, deslocação de moto. E ir dali depois a  com a pobre senhora de oitenta e um anos (que jura que nem se importava de ir em duas rodas) naquilo é coisa imprática. Pra amanhã ficará.

Chegado à esplanada consolo-me por uns momentos com a festa de escrever/ celebração da escrita (as duas traduções do título parecem-me igualmente justas) este livrinho de ensaios de Tove Nilsen, autora que bem gostaria de ver por cá traduzida. Não trata aqui apenas, nos curtos ensaios, da alegria e mistério de escrever. De evocar e recriar. Também da alegria de ler os outros, neste caso, alguns dos escritores favoritos de Nilsen. Màrquez, Canneti, Mankell, Hemingway, Lessing, Bouvier. Por breves momentos, absorto em algumas das passagens a arrelia dissipa-se, volto ao convívio com gente. Iluminada por palavra alheia, a mesma praça de Anna ao Sol.

E ontem, finalmente, depois de anos a ler-lhe os textos, riquíssimo jantar com o Luís Jorge do blog (entre outros), Vida Breve. Sujeito admirado e de bom trato (fino ironista, apologista de humor e ousadia), que não conhecia mais gordo que não fosse de lê-lo. Estranha coisa, abordar-se um desconhecido num passeio da Almirante Reis com uma dívida de gratidão. No lusco-fusco de Lisboa encontrar (finalmente) um espírito luminoso.

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Sobre soliplass

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3 respostas a Tove ao sol, coisas luminosas

  1. Hehehe, em dívida fiquei eu. Por falar nisso, já comecei a ler o livro, que parece muito bom. Em alguns trechos lembra Thomas Hardy, noutros David Vann (mas, lá está, mais luminoso) e até Marilynne Robinson. Um grande abraço.

  2. soliplass diz:

    Ainda bem. Esta coisa de alfarrábios é sempre arriscado de aconselhar. Mas, não caindo no gosto, sempre se pode deixar ( le beau geste & etc.,) de oferta aí num desses cafés que disponibilizam livros aos clientes… por decoração ou por decoro.
    Se calhar já não te soube contar bem (hora tardia, preocupações,o dia tinha sido longo e penoso) a história da mulher do Intendente. É esta: https://ancorasenefelibatas.net/2016/02/04/putas-a-primeira-vista/

    Claro que um José Manuel Fernandes ou o antigo ministro da Vespa (grandes sensibilidades sociais e assim) tê-la-iam escrito melhor. Mas enfim, é o que temos por cá…

  3. Sim lembro-me bem do post. Devia ser interessante pesquisar o que foi feito da mulher, porque nunca se sabe muito bem o que lhes acontece. O José Manuel Fernandes talvez lhe tenha arranjado uma coluna no Observador, sempre é a mesma área de negócio.

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