O comboio especial

 

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Nas últimas férias como que vinha (como lobo a roer ferro) a adivinhá-la. Chegado à gare do Oriente, estremunhado ainda do vôo que me trouxe de Amsterdão, havia comboio parado (o Especial para Braga) com primeira paragem em Santarém. Fartíssimo de sacudidelas, pensando evitar o regional para Tomar, dirigi-me ao figuro da lanterninha que no fundo da plataforma proseava com o maquinista, perguntando desprevenido se podia comprar bilhete no interior do comboio. Indignado com a pergunta de “lesa-majestade” o adiposo e ventrudo personagem lá do alto das enxúndias que trazia penduradas nos ossos, triste figura, dispara seco e com maus modos «Não! É um comboio especial não vende bilhetes!». E assim ficámos…

O comboio especial. Especialíssimo. Ao que me apercebi, levaria de volta a casa por esse país acima até ao poço de lusas e cristianíssimas virtudes que é Braga, os espectadores de um concerto. A juntar ao triste espectáculo do lanterninha vinham uns garbosos cavalheiros já entradotes de idade e ventre em meia-lua, muito compostos mailas suas Madames – por maioria mais que qualificada louras de sobrancelha preta – com os óculos de sol encavalitados no penteado. À meia-noite e meia. Odes à estridência, hinos à celulite, muito pomposas e desdenhantes do povoléu,  equilibradas nos saltos-altos de compensar o metro e cinquenta e quatro. Em média. E melhor compreendi a atitude do lanterninha. Não era apenas o comboio que era especial. Era aquela distinta e aprumada fauna. Tão indiscutível como os dogmas da fé ou as escrituras sagradas há-de ser a especial especialidade de gente que depois daquele volumoso negócio continua a dar aval à coisa com a sua presença.

Apanhando de novo o comboio do aeroporto até ao centro de Oslo dez dias depois, ajudei um cavalheiro já de idade respeitável, colocando-lhe a mala pesada no compartimento da bagagem. A revisora, moçoila saudável que pouco passaria dos vinte e cinco e que vinha a passar, sorriu. E agradeceu.

Não é que estes incidentes como o do comboio especial na Gare do Oriente me causem grande transtorno vistas bem as coisas pelo lado prático. Venho a ler um bom romance, trago dinheiro em notas no bolso que me dá para apanhar um táxi até Moscovo se me der na gana. O que me dá desgosto é que aquele gelatinoso e toucinhento lanterninha ache normal ter que viver assim.

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Sobre soliplass

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