o que se promete e o que se faz (ou deixa fazer)

Aqui há tempos, tentando deitar alguma água na fervura que por aí andava a respeito de uma declaração de intenção de voto dessa boa alma (digo e repito) que é Rentes de Carvalho escrevi num comentário o seguinte:

Quanto à declaração de voto de Rentes: para um tipo como eu, formado em Ciência Política, não posso estar a fazer daquilo bicho-de-sete cabeças. Fosse no caso de Rentes ou tivesse sido no caso de outro. A alteração do sentido de voto, naquele tipo de sistema de representação proporcional (e a Holanda é um caso extremo com o seu círculo único) onde há praticamente um século algum partido esteve próximo sequer da maioria, com uma alta fragmentação do espectro partidário e com um baixo índice de polarização ideológica, uma alteração de sentido de voto é quase coisa inócua. De facto, nos países daquela área geográfica, é prática comum. Qualquer politólogo o sabe e qualquer leigo o descobre se pesquisar no google os termos “electoral volatility”. Porque dificilmente a alteração do sentido de voto se irá traduzir em qualquer tipo de política pública que o candidato anuncie que vai fazer. Depois não faz nada porque tem que passar por um processo de negociação com outros partidos. Porque não pode alterar as leis fundamentais do país, nem a teia de acordos e convenções internacionais a que o país está obrigado, porque enfrenta uma opinião pública esclarecida, porque as políticas públicas são decididas muitas vezes em comités e comissões parlamentares especializadas… etc. E isto é, se realmente alguma vez teve intenção de mudar o que quer que seja, e não apenas em caçar votos e ser eleito. É coisa bem sabida que a posição ideológica dos líderes é sempre mais moderada que a dos eleitores. E depois no norte da Europa já levamos uns anos disto. Aqui na Noruega houve um do género de Wilders; Carl I Hagen (https://no.wikipedia.org/wiki/Carl_I._Hagen) do FrP, ou partido do progresso. Hoje, o FrP é um dos partidos do governo, e a sua sucessora (Siv Jensen) dedica-se plácidamente a enriquecer. Não a perseguir paquistaneses pelas ruas de Oslo.

Siv Jensen é esta estonteantemente bela senhora que lidera o partido populista de direita (contra os imigrantes e tal) que agora está em congresso e que se propõe proibir a circuncisão (coisa que, para lá dos muçulmanos já  traz os judeus enfurecidos) e que aparece na foto do artigo do Aftenposten para que chamo a atenção:

É um artigo intitulado «adivinhe e desenhe» e convida-nos a (passando o cursor do rato sobre um gráfico) descobrir o contraste entre o que o partido prometeu e o que aconteceu enquanto governou em coligação com o Hoyre (direita) nos últimos anos. No segundo gráfico do artigo, onde apenas aparece num primeiro momento o resultado das políticas do governo anterior (coligação de esquerda, a vermelho), passando o cursor e descobrindo o resto (coligação de direita actualmente no poder, a azul) vemos que a concessão de asilo a estrangeiros passou do final de 2014 para o final de 2016 de cerca de 5.500 pessoas a cerca de 12.500.

Já suspeitava que assim fosse quando escrevi o comentário, só não tinha a ideia exacta da dimensão do fenómeno. Quanto à proibição da circuncisão, é esperar para ver. Se entra em vigor vai ser bonito ter a polícia deste bom reino nórdico de rua em rua, de sinagoga em mesquita, a mandar baixar as calças ao varão/cidadão a examinar as ferramentas e a detectar infracções…

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Sobre soliplass

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