Santuários

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Heranças. Percorro as terras, coisas pequenas de dois ou três ou quatro hectares. Creio que vinte e cinco pedaços. Em busca de marcos, o coração apertado. Ali, onde houve uma figueira velha que escapou ao fogo há década e meia, deitei o meu pai no feno. Levei-o ao colo do furgon, procurei a sombra da figueira. Cortava as oliveiras ardidas, vinha falar com ele de tempo a tempo, prometia que rebentariam, que as iria fazer de novo árvores cuidadas. Doente, aquelas coisas animavam-no. Prometia em vão. Um outro Verão os rebentos arderiam, e a figueira velha que lhe deu sombra. Hoje, feno e mato, resquícios.

Na seguinte, sobreiros mal cuidados, tojos por entre os eucaliptos que, de não terem sido desbastados ficaram raquíticos; silvados que num canto que outro deixam ver um marco. Prontos a arder, a levar em tarde fatídica o que vai restando. A afastar mais e mais cada um do que lhe foi deixado de material e de simbólico, as aldeias abandonadas, as casas derruídas. Os velhos sós.

A norte do Tejo, o panorama é este. Há bens, riqueza, potencial. E uma memória que nos liga à terra e à natureza. Deveria ser este o nosso santuário. Com uma operação simples, a troca e posterior ajuntamento das terras de que somos proprietários, haveria um enorme aumento de riqueza. Separadas não valem nada. Ou terão, quando muito, valor negativo. Constituem acendalha no pico do Verão, perigo para os vizinhos, consumo desnecessário de recursos. Se cada um prescindisse de cinco por cento da terra de que é proprietário (disponibilizando-a para utilidade pública ou para distribuir a quem dela fizesse uso) ficaria ainda a ganhar. Com um valor maior. Com possibilidade de cultivar floresta, ou pomar, ou olival, ainda que em actividade de fim-de-semana.

Mas isso seria o grande milagre. Dar algo a alguém que tenha menos. Vencer o emaranhado de ódios e vinganças, de mal-querenças, que permitiria a cooperação.

Muito se criticou a outra senhora por ir para a Comporta brincar aos pobrezinhos. Mas no final de contas é o que todos andamos a fazer em grande parte do território. A brincar e a desperdiçar e a descurar. Por burrice, ressentimento, capricho.

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Sobre soliplass

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