Pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares

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Pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares, Alberto Caeiro, XXXIII no Guardador de Rebanhos dixit, e isto não as são principalmente, mas líquenes nas montanhas Rondane. Um tiro parcialmente falhado, fui, depois de tantos anos a desejar ir ver as suas famosas cores de Outono, no final do Verão. A grande explosão de côr dar-se-ia dias (uma semana ou duas) depois.

Ainda assim, e a perder de vista, já se vislumbrava uma amostra debaixo de um sol pálido, também ele pobre espectro de si mesmo, lembrando a primeira linha de Tonio Kröger de Mann.

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Tempo houve ainda para preparar a um amigo um cassoulet de canard em fogão de lenha tocado a pinho escandinavo e bétula, pobre homem que durante anos me ouvir falar num que comi em Rocamadour, a descrição do belo lugar cravado na rocha, os castelos da Dordogne e o Gouffre de Padirac, e o resto dessa viagem também num outro Outono cruzada a França na K100LT desde os pomares de maçãs da Alsácia que recendiam pela manhã, até, passada a bela Saint-Jean-Pied-Port, ao zigezaguear Ronscevalles acima em estrada atapetada de dourado.

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E reparar um pouco do telhado desta bela cabana de empréstimo, da garagem onde o velho homem que no-la emprestou guarda a scooter de neve e a moto de trail. Quase entrevado, idoso, mal a usa. E queria por tudo pagar o trabalho. Mandei dizer que trabalhos pagos em quase cada esquina se acham…

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Nem sempre, como com as cores de Outono em Rondane, acertamos nas escolhas; tantas vezes condicionadas por questões de oportunidade ou avaliação deficiente. E assim acontece na vida. Também na minha, como na de todos os outros.

Não fui próximo, em vida adulta, da minha irmã recentemente falecida. Professora ela, eu trabalhador braçal, fomos não exactamente distantes, antes desencontrados. Fui, ao contrário dela, de velocidade e dispersão. Teve uma visão mais instrumental do saber, eu fui mais arquivista de inutilidades. Matemática, creio que (coisa nunca expressa nesses termos), me reprovou a frequência de licenciatura e mestrados que (dizem os avisados) não servem para nada. Com certa razão. Clivagens, por mais que fossem congeladas, por mais que se torçam Lipset&Rokkan nas respectivas tumbas, é coisa que não se pode aquecer para o almoço do amanhã. E as explicações de Nuno Rogeiro ou Vital Moreira face a uma Fátima Campos Ferreira ou Lopes televisiva são, em larga medida, auto-suficientes. Não vivi exactamente também no tempo ou na Era que foi a sua. Teria compreendido mal (caso o adivinhasse) que mais preferi a Rambler de Johnson ao suplemento dominical do Correio da Manhã. A dispersão fez-me conduzir (ou ter por montada) durante anos ambos um cavalo árabe e um jipe Lada. Eu e os meus carreiros dispersos… ou parafraseando Boswell no Tour to the Hebrids  na entrada de 6 de Outubro de 1793, Huge windows that exclude the light/ And passages that lead to nothing… 

Acabei por não ter BMw 320d que me levasse a passear aos domingos às margens do Trancão. De dispersão, creio, me censurou em surdina também as camas de muitas mulheres. Mas mandava Deus (e estando um tipo saudável e apto a cumprir-lhe os mandamentos) que se acudisse a necessidades. Entre a Cila do mau-gosto (um gajo como eu) e a Caríbides da impossibilidade estatística (um Marques Mendes ou um Carlos Abreu Amorim por muito que amantes desejáveis não têm o dom da ubiquidade) deitavam coitadas mão à solução de Ulisses ante as sereias: o mastro possível.

Compreendeu mal o meu gosto por, e afabilidade para com, árvores e nuvens, pobres e analfabetos. O ultraje constante perante a abjecção moral do dia-a-dia português, e o como que grito de Itapetinga de Monteiro Lobato por me não ver aprisionado nas suas fronteiras e fobias, galhardetes e manias. Compreendeu mal os cinco mil volumes lá de casa. O hábito de ler o impresso ou a imprensa on-line em sete línguas ainda que demos , ou através dela façamos conhecimento, com um animal comovente e estimável, como o pequinês da tia Oda. Ou com o mar de feno de Moberg. Compreendeu mal as motos velozes, as montanhas e as asas em que voei. E a cama de rede de pendurar nas árvores por hotel. O violento mar do norte, o instante paraíso e inferno que outro não temos.

No seu velório, ajuntamento de professores. E professoras. Em raros, o corpo equilibrado, o olhar benevolente, a face cândida. Mestres do chavão e frase feita, teriam já, alguns e algumas, ouvido de mim, ali rude e falhado-na-vida, amparando uma mãe analfabeta e dilacerada de dôr. No geral corpos disformes, olhar como o de Claggart que perdeu  Billy Budd, faces maceradas, biliosas.

Tentei imaginar qual delas (de uma das muitas a quem ouvia as queixas das intrigas e malevolência) teria sido a que publicou coisa no feicebuque que tanto a indignou e que a trouxe dias amarga e nervosa, a fazer-lhe (nos dias anteriores) talvez empolar o aneurisma que lhe foi fatal. Vieram condescendentes, superiores, seguras de si; tão seguras como escreverão «senhor embaixador» na caixa de comentários do blog de Seixas da Costa, certas que ensinar em escola de Fornos de Algodres ou Alhandra é bem melhor que ser aluno da escola que frequento, eterno súbdito… pobres flores nos canteiros dos jardins regulares.

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Sobre soliplass

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9 respostas a Pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares

  1. Estou para aqui a fazer trabalho de sapa, cheio de inveja dessa liberdade. Sabendo que é ilusória, como tudo o que vem nas redes sociais, mas mesmo assim. Essas flores, essa cabana, esse cassoulet. Com uma garrafinha de baga bairradina, era a perfeição. Mas pronto, lá vou voltar à merda dos “stakeholders” e à bosta da “cultura da organização”. Ninguém merece.

  2. soliplass diz:

    por deixares o Vida Breve ao abandono mais merecias a prisão que a liberdade…

    Aquilo é sítio belo, porém um pouco distante de tudo. Um tipo que erre a lista de compras tem que voltar trinta quilómetros atrás até ao próximo supermercado. E aquelas construções, com os seus silêncios e ruídos, cheiros de madeiras e lareiras, são convite à tranquilidade. Ou ao desassosego de não poder por lá passar mais tempo. A pena é isso, o tempo que nunca chega…

  3. soliplass diz:

    Temos que, eu e outros, organizar sindicato de leitores do Vida Breve e fazer petição pública para que retomes? Ou fazermos manifestação de protesto no Rossio?

  4. soliplass diz:

    Já li o Pour en finir avec Eddiy do Éduard de que tínhamos falado aí para trás, coisa bela. Parece que foi concebido só para provocar a ira de João César das Neves. O melhor dos motivos para escrever um romance, afinal. Nem queria acreditar na sorte, entrei na Gibert Jaune há semana e meia e saí de lá com as duas primeiras edições a preço de metade. Usado mas estimado, como que de garagem, como se diz dos carros que vão à venda na OLX…

  5. Bem, quanto ao Vida Breve acabou e não me arrependo. O mundo não precisa de mais relambórios apressados.

    A boa notícia é que a ausência do blog não me estancou a cabeça, que tem andado a magicar em histórias, relatos, etc., e se tiver coragem talvez ponha algum no papel. Por enquanto são impraticáveis, e preciso de algo que consiga mastigar. Esperemos um ano ou assim.

    Livros: o do Jacobsen avança devagar, não porque não goste mas, pelo contrário, porque existe naquelas existências qualquer coisa de comovedor, e isso é algo que tenho sempre de tomar em pequenas doses para não mandar tudo à merda.

    Tenho infelizmente muito convívio com a literatura anglo-saxónicas. Digo infelizmente porque me escapam outros tipos de sensibilidade, como a nórdica, e quando finalmente descem sobre mim assemelham-se a avalanches, embora pareçam muito domésticas e alheadas. O verso de Eliot aplica-se bem às literaturas do país em que nasceu e do que o acolheu: “Humankind cannot bear very much reality.” Apesar do Roth, da Marilynne Robinson, etc.

    Suponho que te referes à Gibert Jaune do blvd Saint-Michel, onde poucas vezes entrei. Há outra no blvd Saint-Denis que deve ser interessante. Vou tomar nota mental. Está tarde que vá a Paris, a menos que consiga ir no aniversário lá para Novembro.

  6. soliplass diz:

    Sim, essa a de S. Michel. Assim a ditosa esposa deixa-me também passar de caminho pela Shakespeare & Co. Tem que se usar destes estratagemas que nem sempre resultam, mas a gente tenta… o ano passado fez-me ir com com ela de carro para a costa de Amalfi, não houve meio de a convencer a ir para lá de moto. E um gajo que vai de carro e não de moto para uma costa daquelas e suas curvas e contra-curvas merecia no mínimo o cadafalso e o nome riscado nos registos paroquiais.

    Quanto aos teus relambórios (ou ditirambos ou mambo-jambos) apressados, quem se rala que fossem apressados ou lentos? Com tanta gente a escrever igual faz sempre falta quem escreve diferente, quem não tenha André Azevedo Alves por bitola. Porque as coisas lusas são todas muito iguais, muito fáceis de reconhecer. Como tu próprio dissestes aquando do jantar, eras fácil de reconhecer no passeio da Almirante Reis; estavas vestido à «leitor do Expresso». Como poderias ter dito que estavas vestido à «admirador de João Galamba» ou à «Tita Bettencourt de Rocha e Melo vai à feira da Golegã».

    Vista a coisa por outro ângulo; lia ontem dois posts soberbos de duas senhoras que escrevem (a meu ver) muito bem. A que assina por Mãe Preocupada (http://maepreocupada.blogspot.no/2017/06/mrs-dalloway-elena-ferrante-mulher-do.html) e a que assina por Ana de Amsterdão (http://ana-de-amsterdam.blogspot.no/2017/06/onze-e-quarenta.html). Maravilhosos não?

    Imaginemos agora que as duas senhoras um dia ficavam paralisadas de corpo e espírito (deus disso as salve e guarde). Sentados nós numa esplanada ao sol, brisa fagueira no cabelo e o mar em frente, que preferir por companhia? Qualquer uma delas muda e impossibilitadas de escrever ou a leitura das Obras Completas (edição revista e aumentada) de Helena Matos? Fácil né?

    Um gajo precisa de ler coisas como as tuas no Vida Breve. Mas não é bem (ou apenas) pelo que lá vem escrito. Aqui há anos o Yann Martel no final do Beatrice & Virgil (2010) deixava uma série de exercícios a que chamou «Games for Gustav». O sétimo, perguntava o seguinte: “Game Number Seven: Your daughter is clearly dead. If you step on her head, you can reach higher, where the air is better. Do you step on your daughter’s head?’

    Um gajo habituado a ler tanto do que por aí se publica (bloga ou não bloga) quase que estranha que ele não pergunte no exercício se com o pé esquerdo ou se com o direito.

  7. Dois bons posts, sim senhor. Ambos à sombra da Ferrante, embora só uma fale nisso.

    Não li o Beatriz e Virgílio; a frase recorda-me Nietzche, mas N. não é tão divertido: qualquer coisa sobre se depois da casa arder usamos as cinzas para fazer o jantar.

    O Vida B. é um filho enjeitado, porque me deu muito trabalho a criar e resolveu ir para medicina em vez de estudar engenharia como lhe mandei. Cumpriu de resto a sua missão, que foi a de me manter vivo enquanto o mundo queria que eu morresse. Às vezes vou lá e releio alguns textos, que envelheceram bem.

    Agora o cerne: a Helena Matos, o Azevedo Alves, o Abreu Amorim já não existem. Continuam a escrever e a saracotear-se mas não existem. Um dos encantos de Lisboa, que hás-de descobrir um dia, é que tudo desaparece em dez anos. O “liberalismo” foi à vida. Agora até temos empreendedores que são pessoas normais, imagina. Quando lhes aparece à frente um Amorim julgam que é assombração. O Expresso idem, já só se lê na Avenida de Roma, que é uma espécie de província ultramarina.

    Por isso, servir de contraponto a essa gente é agora desnecessário. Temos uma vida nova. Fui à Feira do Livro e nem reconhecia aquilo, por me parecer tão igual ao que era antes. Quando saio à rua nunca sei o que vou encontrar. Queres tu que seja alternativa ao licenciado portuense de economia e gestão?

    Tens é de vir cá ter comigo, se quiseres trazes a mulher e levo-vos à Madragoa — nada de especial, mas dá para perceber como isto anda.

  8. soliplass diz:

    Pois, o V.B. era mal-mandado e imprevisível. Ter ido pra medicina nem é grave, mau ter ido dar aulas para uma universidade da Junqueira. Mas a desobediência é gira. Era uma das boas coisas do V.B. Havia sempre surpresa. Coisa fresca.

    Havia por aqui num outro navio em que estive muito tempo, uma coisa sumamente triste; uma boneca insuflável (não sei se era sempre a mesma ou se eram várias do mesmo modelo que compravam no sex-shop alemão) que andava de cabine em cabine e que era usada em partidas e festas de aniversario. A coisa era triste porque era muitas vezes transportada de sítio para sítio por colegas femininas que preparavam as festarolas de chefes e oficiais. A uma submissão juntava-se outra. De vez em quando lá a via passar debaixo do braço desta e daquele a caminho de mais uma rambóia qualquer. Nem sei se aquilo tinha orifício, ou se um ou outro em maior desespero de causa trancaria garrocha nela. Por puramente decorativa que fosse facto é que aquilo era triste e monótono, de cor desmaiada, inerte, levezinho. Às vezes ao ler muito do que por aí se escreve, sempre igual e bem-mandado, lembra-me a puta da boneca.

    Há por aí uma senhora editora, que de escrever tão semprezinho a mesma coisa, ainda que a respeito de um livro novo, lembra aquele artefacto. Livro que aconselhe, pensamento que partilhe, fica tão atractivo como aquela coisa insuflável.

    Quanto a isso de Lisboa terás mais conhecimento de causa que eu que sempre ando atrasado nas notícias e passo ao largo das coisas. É uma das coisas que confesso com vergonha, por exemplo, aos rapazes da minha geração; nunca vi o video do Taveira. Se isto não é o cúmulo da desinformação não sei o que seja…

  9. hehe, o vídeo do Taveira. Fica sabendo que não o vi (mesmo) mas ouvi dezenas de vezes por culpa de um ribatejano. A história é simples: nas agências trabalha-se em dupla, um tipo em frente ao outro. De modo que quando o meu dupla vinha do almoço ligava o computador e tinha o seu momento de digestão, que era passar uns morceaux choisis do arquitecto, e repetir as linhas diálogo ou monólogo em voz alta. Assim fiquei a conhecer o telefonema do doutor, a menina da lojinha, o “aí não senhor arquitecto” e talvez a “conversa importante” com o Cadilhe, mas posso estar a confundir.

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