Lembranças, camarões secos

Tenho, no início de turno, duas horas a trabalhar à-la-carte no almoço do restaurante de topo, no décimo quinto deck. Hoje, alguém, não soube quem, reclamou dos camarões da sandwich. Veio a minha colega garçon, simpática demoisele, comunicar a reclamação um pouco estapafúrdia. Os camarões da sandwich estavam secos. Mas, nunca se sabe o que é estapafúrdio ou normal para um e outro. É preciso cuidado. Com as pessoas, com os seus gostos e hábitos, com as interpretações. Um homem envelhecido e desgostoso da morte da esposa vive numa casa isolada numa floresta fria recordando uma história velha num romance de Per Paterson. Na companhia da cadela, replicando gestos a cada dia. Rituais. Como ele, o inventado, há muitos outros reais. Expliquei que não são secos, apenas bem escorridos para que a água em que são conservados não ensope o pão e a salada em que vão montados, para que não tenham água salgada a misturar-se na maionese. Mas que, tinha outros acabados de escorrer que tinham ainda bastante água ou humidade, se assim o desejasse quem reclamava que lhe montava outra rápidamente.

Aceitou. Entrei depois, quando tive tempo disso, na sala. Já não vi quem era. Vi sim, a mesmíssima arquitectura, sob outra luz hoje, o recanto onde tirei a foto que ilustra o texto de Holbrook Jackson  no The Anatomy of Bibliomania. Lembrei uma das fotos que mais gosto aqui do âncoras. A vida caro leitor é uma improvável mariscada, exdrúxula coisa de secos e molhados.

 

Sobre soliplass

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3 respostas a Lembranças, camarões secos

  1. Sempre interpretarei isto da seguinte forma: existe um balcão (colocar itálico, se vergonha existir – fiz em tempos um texto sobre isto de ‘servir’, que para mim é uma honra mas bem sei como é, geralmente interpretado, nomeadamente, a prucidênssia da républika) e dois lados. Um dos lados, ocasionalmente, além de pensar que está ali para ser servido, nem sequer se recorda que foi servido por alguém. Uma, ou mais pessoas. Que, invariavelmente, nem querem conhecer, escutar.

    Simples e horrivelmente, perderam o gosto por tudo.

    Abraço.

  2. soliplass diz:

    Uma das coisas boas daqui é que só é preciso servir. Com delicadeza e fieldade. Mas sem servilismo, que aliás, será, no geral, mal-visto.
    E tem coisas giras. Depois das duas horas no restaurante (supra), desço para mais quatro no buffet, sendo o resto da noite na produção para o dia seguinte. No buffet, tenho a meu cargo mariscos, queijos e frutas. Ajudar, quando for caso disso, o meu colega das sobremesas.

    Há três dias, com as mãos em lagostins e sapateiras dei por duas cabecitas louras a meu lado. A mais velha de cerca de cinco ou seis que já chegava com os olhos à bancada, a mais novita aparentava três. Norueguesas. Vi logo que não era marisco o que procuravam. Em que vos posso ajudar meninas? Melancia. Era melancia, que se tinha acabado no buffet das crianças, que fica à parte, junto às grandes janelas de bombordo.
    «Venham comigo», seguiram-me até ao outro lado, à bancada da fruta. Que, tendo ainda melancia, não tinha já a melhor fruta, ou a mais apelativa para crianças. Perguntei se queriam morangos, disseram que sim, fui ao frigorífico por outra fruta. Vim de lá com umas caixinhas de morangos, amoras, uvas vermelhas. Quando estava a compôr-lhe o prato, diz a mais pequenina olhando para o chão: «está a pingar água». «Sim», disse eu, «temos que lavar sempre a fruta, também em casa». Atrás de mim, a mãe que entretanto as tinha procurado e dado com elas ali, dizendo à mais pequena que estava a pingar por sua culpa, que me tinha vindo incomodar, a desculpar-se a mim dizendo que eram uns terrores, cada uma por si e juntas então não se pode, não param quietas. Disse à senhora que não é incómodo nenhum. Que, mesmo que a gente ande a trabalhar com os olhos postos nas coisas que servimos, só de ouvir correr e rir crianças pela sala já é agradável. A melhor das decorações. Que os meus colegas pensam o mesmo. Depois preguei-lhe uma partida: «o pior é essa gente toda aí atrás de nós já chateada de estar à espera». Voltou-se a mãe quase aflita, e eu também, já sabendo o que tinha pelas costas, porque estou farto de ver o mesmo. Sete ou oito pessoas, que maioritariamente eram senhoras já séniores com aparência de alemãs, mais um ou dois homens, sorriam das criaturinhas charmosas. «Está a vê-los todos chateados? Tem aqui umas raparigas de encanto que já enfeitiçaram esta gente toda. São também a melhor decoração lá de casa, imagino eu…»

    Lá abalou com elas, vaidosa e sorridente, uma mão no ombro de cada .

  3. 🙂

    gosto de te saber satisfeito assim, não é difícil imaginar-te (mesmo não conhecendo o teu rosto) feliz com estes momentos que fazem minimizar aquilo que não deve assoberbar-nos os dias.

    e quero acrescentar isto: é também a minha atitude na vida, em geral, mas muito na questão do verbo servir (que, de servilismos, jamais foi feita, há que não confundir conceitos e actuações).

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