Ler os outros

Jorge Carreira Maia no Kyrie EleisonTentações ingníferas:
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(…) O pior que poderá acontecer é que a desgraça de Pedrógão Grande se transforme no início de uma batalha pelo poder. Não porque a direita possa ganhá-la. Não porque a esquerda possa ganhá-la. Fundamentalmente, porque isso ofuscará o que está em jogo. E o que está em jogo são as opções que têm sido tomadas ao longo de muitas décadas por múltiplos governos. O que está em jogo é a natureza do funcionamento das nossas instituições, a sua fragilidade estrutural. O que está em jogo é a própria atitude dos cidadãos. Enfrentar estes problemas – que nascem de hábitos implantados e bem consolidados – é muito mais difícil e desagradável do que lançar uma fronda e combater nela.
   Em última análise, essa fronda seria benéfica para o governo e para a oposição. Asseguraria que o essencial se manteria tal como está. Evitaria que se enfrentassem os problemas difíceis e se tomassem decisões desagradáveis, muito desagradáveis, que poriam a nu a natureza maléfica de muitas opções do passado e do presente, que chocariam com os interesses instalados e que seriam contestadas pelos próprios cidadãos. Passado o impacto do momento, o mais provável é que o instinto político dos protagonistas evite enfrentar o desagradável e a tentação frondista se imponha – de início, com certo cuidado – para ocultar os reais problemas que se manifestaram no incêndio de Pedrógão Grande.
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Sobre soliplass

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2 respostas a Ler os outros

  1. Não concordo com a análise, e aqui considero que há mesmo gente da direita que está chocada com isto:

    “Face a uma desgraça em que morreram 64 pessoas e ficaram feridas mais de 200, nenhum governante admitiu até agora (tal como não tinha admitido na quinta-feira passada) ter responsabilidade política nas consequências do incêndio em Pedrógão Grande. Parece haver, aliás, grande confusão quando se fala de “responsabilidade política” do governo em funções. O Secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, chegou a dizer que estava com a “consciência tranquila”, como se fosse alheio ao facto de 47 destas pessoas terem perdido a vida num incêndio numa estrada nacional para a qual terão sido orientadas pelas autoridades. De quem é a responsabilidade por não haver um plano de contingência em incêndios que se repetem todos os anos? De quem é a responsabilidade pelo caos instalado, uma vez dado o alerta de incêndio? Nenhum governante se demite em circunstâncias destas por ser culpado directo. Não foi a MAI que ateou o fogo (isto agora tem de ser tudo explicado ao detalhe). Um governante demite-se porque tem uma responsabilidade moral, que é inerente ao cargo que ocupa. Não se trata de fazer “rolar cabeças”, mas de substituir pessoas que, por incompetência, indiferença, ou por terem relegado o assunto para segundo plano, levaram a que isto pudesse acontecer. Se 64 mortos não fazem com que os governantes sejam conscientes da responsabilidade que têm perante os cidadãos, não sei o que fará.
    O Presidente da República foi a única pessoa que percebeu imediatamente o que isto podia significar para o governo. É que no meio de um ambiente de euforia, em que as boas notícias e o optimismo ocupam o espaço mediático, ficou de repente muito à vista a realidade de um país isolado, pobre e entregue à sua sorte. #Irritações”

    O texto é da Carla Quevedo, e deve ser das poucas vezes este ano em que concordo com as opiniões políticas da Carla Quevedo. A indiferença do PS a propósito deste caso, e a sanha persecutória com que tratou das consequências, chocou-me tanto (aquela tentação de perseguir o falso repórter do El Mundo, o Secretário de Estado de “consciência tranquila”, a boa gente que diz que Passos Coelho contribuiu para “um efeito Werther” ao falar em suicídios), que neste momento estou pronto a alterar o meu sentido de voto nas próximas eleições. Não o farei para direita, claro.

  2. soliplass diz:

    Certamente que haverá. E provavelmente uma demissão teria sido até justificada, ainda que, por si só, não resolvesse coisa nenhuma. Mas o problema persiste no terreno e uma luta pelo poder, com a tentativa de desgaste do adversário, não o vai resolver. A juntar à tragédia de perdas humanas e materiais vamos ter ainda de gramar um espectáculo abjecto. Ou muito me engano ou ainda a procissão vai no adro.

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