Quatro leitores

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Da janela do hotel, na noite de ontem, uma floreira com arbustos cobertos de neve; e para lá deles, a visão do parque do palácio real com a terra atapetada de branco. Vinha desejoso da primeira neve do ano. Ao longo da manhã e tarde, no aeroporto de Bruxelas, no de Lisboa, o telefone esperto ia indicando que nevava em Oslo/Uranienborg. Tinha cessado o nevão quando cheguei aqui, não deu aquele prazer de caminhar sentindo os pequenos flocos derreter na pele, no cabelo. Deu, isso sim, o prazer da caminhada na manhã nevoenta em direcção ao porto e ao navio, o ouvir da neve ranger sobre as botas, e este ambiente de ruas pacificadas. Lembrando uns verso de autora norueguesa que deixei aí para trás comparando o nevar a um exército de paraquedistas que invade o reino para o pacificar.

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Só trago comigo na mochila de viagem um romance; Sweet Tooth de Ian McEwan. Passo por isso pela velha e conhecida amiga Karin Magnussen e pelo seu Frogner AntikvariatE ali, sempre algo de bom se encontra a preço de chuva (ou de neve), no caso de hoje, uma monumental biografia do velho Jens Ingvald Bjørneboe (Sin Egen Herre – «senhor de si») e um romance do prolífico Kjartan Fløgstad, o Grense Jakobselv; coisa devida, já que a preguiça de ler na outra língua nacional (que não entendo tão bem) o nynorsk, mais ordena. Coisa de cinco euros, os dois volumes, que, por junto fornecem mais de mil páginas.

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É um dos confortos, um dos sentimentos confortáveis, ao chegar aqui. Livros, por todo o lado à venda e baratos, oferecidos, lidos por desconhecidos nos cafés, nos comboios, nos aviões. Tantas vezes, deixados por aqui, pelos passageiros do navio, acabando na sala de convívio, à disposição de quem os quiser ler. A companhia de livros, a companhia de gente que lê livros, ainda que num relance de olho sobre o parceiro do lado num café ou autocarro é coisa de que sinto falta em Portugal.

Há uns meses, abrindo café novo nas imediações da casa portuguesa, vi que tinham umas prateleiras nas paredes com livros. Passei por lá e deixei uns exemplares que tinha repetidos em casa de Madame Bovary e de Moby Dick. Disse à jovem senhora, agradecida pela oferta e de uma polidez e simpatia irrepreensíveis, que a coisa fica mais composta com aqueles clássicos. De uma geração que fez o secundário e que provavelmente frequentou a universidade, disse que os desconhecia. Nada que surpreenda, nem eu a condeno por isso. É algo de perfeitamente normal entre nós. Todos nós conhecemos gente boa e bem formada que os desconhece.

Por outro lado, há qualquer coisa que falha no sistema de ensino português quando aqueles que o frequentaram chegam à idade adulta sem conhecerem (ainda que pela rama) esses romances fundamentais do sec. XIX. Há algo de errado numa sociedade que não os propaga e oferece, louvando-os, falando deles, aos geral dos indivíduos que a integram. De alguma forma, essa falha é colmatada à medida que nos deslocamos do sudoeste europeu até ao extremo nordeste. Há mais livros, mais leitores. Diria que mais bom-senso e empatia, mais silêncio e menos treta.

No avião de Bruxelas a Oslo, a meu lado, um casal de simpáticos jovens noruegueses; sentaram-se depois de arrumada a bagagem de mão, abriram os respectivos livros. Confesso que é um gesto que me dá algum conforto, alguém a meu lado que acende a luz de leitura no painel acima e abre um livro. No romance Sweet Tooth de McEwan que vinha a ler, paperback da Vintage (2013) Serena, a narradora, confessa, a páginas tantas (75, desta edição):

«I kept up reading the same old style , three or four books a week. That year, mostly modern stuff in paperbacks I bought from charity and second-hand shops in the High Street or, when I thought I could afford it, from Compendium near Camden Lock. I went at things in my usual hungry way, and there was an element of boredom too, which I was trying to keep at bay, and not succeeding. Anyone watching me might have though I was consulting a reference book, I turned the pages so fast. I was, in a mindless way, looking for something, a version of myself, a heroine I could slip inside as one might a pair of favorite old shoes. Or a wild silk blouse. For it was my best self I wanted, not the girl hunched in evenings in her junk-shop chair over a cracked-spine paperback, …»

Como não há fome que não dê em fartura (diz o rifão) naquela fileira de três assentos já vínhamos quatro.

Sobre soliplass

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