Parole

IMG_20171124_195032

Deixei de trazer livros comigo de casa para ler a bordo. Quando muito, um para a viagem de avião, coisas de bilhetes sem bagagem incluída. Chegado aqui, privado do que aconselham as colunas de literatura lusas e mais o blog da dra. Pedroso, em volta pelos antiquários e alfarrabistas, ou por uma loja de trocas do município de Oslo, rapidamente arranjo material de leitura. E barato. Por um total de quinze euros e meio logo fiquei com doze exemplares de boa literatura. Entre os quais o Indignation de Roth, em estado de novo e primeira edição. Enfim, não tão boa como a que teria encontrado numa Bertrand ou Fnac, ou Almedina, e mais o radiante e omnipresente sorriso da dr. Sacadura Cabral, mas é o que se arranja por quinz’euritos…

É  claro que isto de comprar livros, de gostar da companhia de livros, passa por vezes das marcas. Mais que apetite pela leitura, pende para parecido com o pecado da gula. Acabo por comprar mais do que consigo ler ainda que seja um leitor veloz. Há porém coisas irresistíveis; uma delas, a do topo, a colectânea da poesia de Einar Økland.  Senhor de ironias vastas e bastas, poeta e ensaísta prolífico, de quem já traduzi aí para trás um poema. Lá para casa estarão três ou quatro livros dos seus (no meio da babélica desordem, onde é outra questão), neste está compilada a sua produção 63-93 – oito livros a que se juntam agora (o agora de 1993) mais uns pósescrevinhados e uns avulsos.

Trouxe este livro que estava em oferta aqui na loja de trocas em Oslo para reler alguma da sua poesia, e porque me lembrava de um poema (se bem que não o título dele) que queria reler. E vem a propósito porque me causou indignação uma palavra exdrúxula numa crónica de Daniel Abrunheiro: entardenoitecer. O cronista, mandando às urtigas a gramática, e a moral e os bons costumes dela, lança a confusão na mente do leitor, ainda que o distante e ocasional, o da estranja, exilado nestas nórdicas tundras e taigas, vai por beber o materno leite da língua pátria por mor de ortografia organizada e cada macaco no seu galho. O trecho (de parca quantia que não ocorreria a Moita Flores) reza por conseguinte:

Eu tinha passado a manhã, a hora de almoço e mais duas horas a escrever. Coisa infelizmente rara, chovia. Eu tinha um euro e sessenta cêntimos na algibeira. Por volta das quatro da tarde, entreguei à gerência do Café os sessenta cêntimos da bica. Pus-me então a pé, de derradeira moeda de euro no bolso, a caminho de outro estabelecimento onde pudesse aproveitar o entardenoitecer para escrever ainda mais qualquer coisita. Aproveitei uma aberta pluvial e ala que já era…

Daniel, sob o risco da transmigração de leitores das suas crónicas para as de Laurinda Alves ou Moita Flores, autores que não metem varinha-mágica ao palavreado misturando-lhes as letras, deveria atentar nos conselhos (ou ordens) deste Parole, dado à luz e à estampa em 1991 – em voluminho Når ikkje anna er sagt de sua graça – e não andar a desorganizar palavras, lançando assim confusão nos leitores e exasperação nos gramáticos.

E antes de mais uma explicação: parole é usado no norueguês corrente no sentido de palavra de ordem, slogan. Há mais umas variações e trocados, mas o comum é entender por parole aquela frase (ou impertinência de chatear políticos) que vem escrita nas bandeirolas das manifestações. No entanto, no decorrer da guerra, muito pra chatear também o Hitler, o governo no exílio em Londres, através da imprensa ilegal ou através da rádio, dava instruções e encorajamentos à nação ocupada. Essa série de instruções e conselhos, ficou conhecida por Parole. Nesse sentido, traduzirei o título por Instruções.

Usaremos aqui, «resguarda de» para traduzir «Forsvar… mot»: em rigor, «defende… contra». Resguarda tem um som mais parecido com «fòrsvár», de tem a simplicidade de «mot». Correcções são bem-vindas.

 

IMG_20171124_194832

 

Instruções

 

Resguarda as letras

da palavra.

Resguarda as palavras

das frases.

 

Resguarda as frases

dos textos.

 

Resguarda os textos

dos livros.

 

Resguarda os livros

da biblioteca.

 

Resguarda a biblioteca

das cidades.

 

Resguarda as cidades

das nações.

 

Resguarda as nações

do mundo.

 

Resguarda o mundo

dos leitores.

 

… e no seguimento do post anterior, que linka prà frase que teria agradado a Einar: « …porque ninguém domina uma língua e depois porque língua que se deixa dominar não merece ser falada, escrita ou sequer respeitada

 

 

 

 

 

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , . ligação permanente.

Uma resposta a Parole

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s