dos direitos e dos tortos

Rapaz rústico, trabalhador braçal, espadaúdo e musculado de (entre outras) tanto rachar cavacas, aprendi há muito que a sociedade portuguesa não gosta de misturas. Cada macaco em seu galho, se possível fardado de acordo com a altura do galho social.

Não me passaria pela cabeça por exemplo, participar em ocasião ou evento social (jantar, por ex.) para que me convidasse a minha falecida irmã ou o meu melhor amigo, ambos professores do secundário. Ter sido trabalhador braçal, é, entre nós, pior que ter sido leproso. A acresce ainda (mas isso são detalhes) que, de magras bibliotecas, raramente se encontra em tais ajuntamentos com quem parlamentar sobre um detalhe do The Life of Samuel Johnson, ou de La Vida del Buscon, por exemplo, de narizes entre Roma y Francia…

Ocorreram à memória, recentemente, em parte por causa da polémica causada pelo inquérito de Carlos Jalali, alguns episódios que vivi na universidade de Aveiro aquando do último mestrado que frequentei em universidades portuguesas. Um deles, caricato, foi a constante má cara que uma professora da instituição fazia questão de me mostrar. Nunca falei com a senhora, imagino apenas que não gostaria de ver ali aquela minha cara, o  meu mau vestir, o ar de lenhador. Eu sentava-me por ali à espera que Carlos Jalali que era meu orientador chegasse, e a senhora, passando ou vindo à máquina de fotocópias fuzilava-me com o olhar; lembrando o outro do tendeiro da Sierra Morena que com ele ceifava vidas em vôo. Ou pode ter sido apenas impressão minha ainda que repetida e frequente…

A senhora, que escreve no blog Aventar, tinha um dia destes um post de admiração por um estudante de uma universidade grega que lhe dizia que o não pagar propinas, ainda que em mestrado ou doutoramento são direitos, não privilégios. Sorri. O tipo devia ter muito bom aspecto e os ombros muito estreitinhos para lhe causar tal simpatia…

Sempre que o assunto são direitos, lembro-me da velha polémica oitocentista entre Burke e Paine. Como o primeiro, antes quero viver em sociedade que mos reconheça (ainda que poucos, como o esperar lendo uns papéis pelo meu orientador num mestrado em que paguei as propinas sem que me mostrem má-cara) que em sociedade que mos proclame. E por cá, somos bons é nisso; em proclamações universais.

 

 

Sobre soliplass

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Uma resposta a dos direitos e dos tortos

  1. A tua honestidade (bem sei, todos temos os nossos filtros em algumas questões, é legítimo, não temos que ser sempre iguais a nós próprios, enjoaria) é o que me traz aqui há muito tempo. A par dessa tua honestidade, o prazer que é visível na mesma: rachar, cavar, subir, trepar, voar, conduzir, etc.

    Se eu soubesse o que é a alma, diria que a tua alma é boa. Não sei, mas digo-te na mesma: a tua alma é boa, és uma boa pessoa 🙂

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