A obrigação de ser fantástico

Sexta da semana passada, sala de embarque do aeroporto de Oslo, vôo para Lisboa, vozes atrás de mim, língua portuguesa. Conversar sem ouvir o outro. Ping-pong, a ver quem sabe mais do assunto. Quase uma obrigação, ser o maior e o mais sábio, um príncipe na vida, nos termos de Álvaro de Campos (ou Pessoa) do poema em linha recta.

Eu tenho o vício oposto, coisa que muito irrita os meus colegas portugueses a bordo. Digo-me o mais feio e o mais burro, o que veste pior. Salta-lhes a coisa fora dos mandamentos, ou, suspeitam (com razão) que é forma de gozar o prato com o vício nacional.

Há cerca de dois meses, vindo do ginásio do navio a meio da noite, antes de tomar o duche e ao fazer a barba, escorregou-me a gillete nos dedos, abri um corte de truz a meio do queixo. Usei penso a tapar o corte nesse dia mas no dia seguinte, passado o duche, deixei a ferida à vista para melhor cicatrizar. Indo por um café na messe, a colega de serviço à noite ao ver a ferida observou: «é pá que grande corte…»

Gracejando, como é meu jeito, expliquei: «é… faltava um pouco de bacon para fritar para o pequeno almoço, tirei logo uma fatia ao primeiro porco que vi.» E logo ali levei descasca da grossa. Puxando do melhor sotaque da Linha,

«Irra, parece tu que tens complexos! Sempre a dizeres mal de ti mesmo.»

Não eram complexos, apenas brincar com uma ideia: andando à procura de um porco, o primeiro avistado ser sido ao espelho. Mas aquilo entra logo em conflito com a obrigação nacional de ser fantástico pelo que configura crime de desobediência aos sagrados mandamentos lusos. Quanto disso há por aqui? Leio no Um Jeito Manso e não posso deixar de concordar:

 

“Aqui, na blogosfera, as pessoas tendem a ser sisudas. Ou solitárias. Ou tristonhas. Ou ensimesmadas e circunspectas. Muito compenetradas das suas razões. Não há muitos blogs em que a gente veja ali uma cara alegre feita à escrita. Não há quem se atire para fora de pé just for the fun of it. Não há muito quem desfie palavras envoltas em puro destempero.”

É uma das coisas de que sinto a falta quando me encontro (como é o caso agora) em Portugal, de gracejo que não seja escárnio ou agressão, de humor brincalhão; nas palavras da autora do Um Jeito Manso, destempero. Há poucos dias ainda, na Noruega, um jogador do Lillestrøm (Aleksander Melgalvis), ao receber a taça presenteou a audiência da cerimónia e os colegas com uma sessão de riso (deliciem-se as senhoras com o vídeo) nestes termos reportados pelo The Sun.

Quem por cá se atreveria?

Sobre soliplass

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