Lorca, dormir, tempos contados e por contar

Fui ontem ao google por uma frase de Queipo de Llano, radiodifundida em 36:

«Nuestros valientes Legionarios y Regulares han demostrado a los rojos cobardes lo que significa ser hombres de verdad. Y, a la vez, a sus mujeres. Esto es totalmente justificado porque estas comunistas y anarquistas predican el amor libre. Ahora por lo menos sabrán lo que son hombres de verdad y no milicianos maricones. No se van a librar por mucho que berreen y pataleen.»

De caminho, outras preciosidades como esta das suas memórias:

 «Me dirigía a los obreros en tono paternal, que me hiciesen caso a mí era lo más conveniente para ellos, pues yo tenía una idea muy arraigada de que el pueblo era igual que los niños, a los que hay que cuidar y mimar cuando son buenos, pero que no se pueden dejar nunca sin castigo sus malas acciones»

Dia de ócio, o de ontem. Regressado do aeroporto de levar a minha mulher, lá fora vento e chuvarada, um dia de sofá, para leituras & releituras. Numa das pesquisas, dou com os versos de Lorca,

Quiero dormir un rato,
un rato, un minuto, un siglo;
pero que todos sepan que no he muerto;
que hay un establo de oro en mis labios;
que soy el pequeño amigo del viento Oeste;
que soy la sombra inmensa de mis lágrimas.

e aqueles dois versos, trazem à memória o consultório de um pediatra em Torres Novas. Pintado de preto, os versos escritos na parede. Fui buscar o Tempo Contado de Rentes de Carvalho para reler as entradas da semana de sábado, 22 de Abril, a sexta 28 de Abril. 1995.

Um dos livros mais bonitos que li este verão, foi-me gentilmente enviado pela autora. De Torres Novas. Contava-me, há cerca de ano e meio que nunca gostou por aí além da escrita de Rentes de Carvalho. Por contraponto com o meu fascínio. Não me lembro já da justificação que dei para que tal aconteça. E para que lhe saiba os livros par coeur. Lembro que a memória fugiu dali da esplanada debaixo das tílias para a descrição do Santuário da santa da Ladeira, ali a dois quilómetros para Leste. E por esse Portugal acima de fenómenos do género. De como tanto do que escreve tem um enorme rigor documental (o último Trás-os-Montes, o Nordeste é exemplo) a par da compaixão que pede para com o semelhante. Dessa semana, é exemplo o homem a quem dá boleia na estrada de Mós, vindo (pela quarta vez) de tentar pagar impostos.

(…) Vinha das Finanças de pagar os impostos. A quarta vez. Das três primeiras tinham-no mandado de volta, porque os papéis não estavam em ordem; ou estavam mal preenchidos, ou lhes faltava um selo, um carimbo, um anexo. E os funcionários sempre com mau modo e vexames. Se não sabia ler nem escrever. Se não era capaz de encontrar alguém que o ajudasse a preencher os papéis. Ou se não podia pagar.

Envergonhava-se de não lhes saber responder e de não ser capaz de se defender. (…)

Tempo Contado, 2010, Quetzal, pp. 260-73

Sete, cinco anos antes das entradas no diário, via com estranheza aqueles versos na parede negra do consultório. Que raio de ideia pintar um consultório de pediatria de negro. Vezes sem conta olhei aqueles versos, cabeceando de sono. O pediatra, pessoa sensível e cultor do belletrism pintava. De um qualquer fascículo que lhe propagandeava as obras, lembro de umas  memórias de infância. Alcanena. O sofrimento dos operários. E a frase que descrevia o bater dos couros nas fábricas, «batiam nos dorsos cansados dos couros».

Chegava ali com a minha filha nos braços, consulta marcada para as nove e meia ou dez, seria realizada duas horas depois. Se tanto. Chegada depois a casa passado já da meia-noite. Teria que pegar na fábrica de cortumes daí a cinco ou seis horas. Eu era um daqueles operários não romanceados. Era de facto, naqueles finais de oitenta um ser desagradável. Extenuado e encurralado, sem tusto, a quem nada sobrava do ordenado mensal apesar das horas extraordinárias, nunca negadas, sempre insuficientes. Silencioso, a ler aquele Quiero dormir un rato,un rato, un minuto, un siglo de Lorca na parede preta. A menina, era a neta do industrial, meu sogro, amigo do pediatra. Um erro do destino, tal como eu. Talvez por medo de desagradar ao amigo, em dois anos e tal o pediatra nunca me dirigiu palavra.

Naquele dia em que a escritora que prezo me dizia que nunca gostou por aí além da escrita de Rentes de Carvalho, lembrei-me da miséria descrita. A da santa da Ladeira. O contar o que foi. Haja alguém que conte. E descreva. E muita ficou pelo caminho, sem crónica, e ali bem perto. A minha, por exemplo.

 

 

 

 

*https://es.wikipedia.org/wiki/Gonzalo_Queipo_de_Llano

*http://trianarts.com/federico-garcia-lorca-gacela-de-la-muerte-oscura/#sthash.kBs1aUWP.dpbs

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