Nhê preta

Ti Marcolino tinha um cata-chatos. Negociava agora, já velho, em eucaliptos. Capitão não gancho mas tenaz, pela falta dos dedos intermédios do polegar ao mindinho. Acidente de pesca, ao que nos contou, nos mares de S.Tomé e Príncipe.

Dos retornados que conheci foi o único que não chorava riquezas lá deixadas. Chorava sim a simplicidade da vida c’os pretos, a choupana e o mar pródigo, o cheiro da água e da selva, os barulhos e cores da natureza. Vivia entre pretos, tinha só pró dia-a-dia, um barco ou canoa, os apetrechos. Não tendo trazido de lá nada, veio ainda assim com o que lhe imaginei ser o seu grande tesouro. A sua preta, a quem com desvelo e carinho se referia como «a nhê preta». Eu, já rapaz, quase adulto, ganhava alguns dias para ele ao fim-de-semana. Não tinha empregados, falava a este ou aquele, se caso, ao fim-de-semana, para abate de eucaliptal de que não conseguisse dar conta sozinho.

Foi nos poucos dias dos verões de dois anos consecutivos que lhe ouvi, não o rancor aos indígenas santomenses, não à riqueza lá deixada, mas o elogio daquela gente que descrevia como simples e boa. Exemplo dessa gente simples e boa devia ser aquela a quem chamava sempre com desvelo e carinho a «nhê preta». Dela não soube nada de concreto por aí além, que não fosse olhar-lhe a marmita do almoço que enviava ao marido. Parecia condizer com a ternura com que Ti Marcolino a referia. Imaginei-a desterrada no Portugal seco de verão e frio e morrinhento de inverno. Analfabeta, sem laços com os vizinhos.

Nem sei já quando, Ti Marcolino morreu. E durante anos ao passar, na vila ou aldeia onde moraram, ali num degrau de escada ou poial, onde agora se vê uma laranjeira, se era inverno e o dia indo de sol qualquer raio é bem vindo, ou se era verão e a sombra e a frescura do fim de tarde dava alívio, ali via a pobre velhinha preta, já viuva, sentada.

Sempre admirei aquela história de amor vivida em duas partes tão distintas do planeta, mais imaginada por mim que contada por ele, já bem passado dos sessenta, quando há algum pudor para falar de amor. Nem na província se usa de ordinário a palavra. «Gostei dela», por norma, diz o que há a dizer, o amor é acto repetido de uma vida, não palavra.

A velhinha preta desapareceu do seu degrau ou poial, há muito. Nunca falei com ela, não lhe soube o nome, apenas a vi de longe, ou ouvi, relatada como «nhê preta». O episódio dos cavalos ao lusco-fusco, ocorrido a quilómetro e pouco de pele negra e cabelo branco, cada vez mais ao passar por lá, me lembra a frase que tento balbuciar num arremedo de sueco de Per Olov Enquist do romance Livläkarens besök. O condenado Struensee que ao ver o seu cavalo (a julgar pelo nome Margrethe, certamente, foi égua) levanta a mão como se para uma última carícia:

Han hade velat klappa hästen på mulen, men inte nått fram.”

Quantas vezes, ao passar, vendo-a sozinha no seu degrau, senti a mesma vontade; uma carícia àquele amor tão singular do qual tão pouco soube. Àquela solidão sentada no degrau na que o marido enquanto vivo tanto elogiava,… «nhê preta». Talvez um post sirva; uma frase de Enquist… O que deixar àquele amor incronicado de velhice provinciana, saudoso de praias tropicais, contado à sombra escassa de eucaliptos?

 

Sobre soliplass

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