Sítios, livros, leituras, linhas,carambolas, coisas da insónia

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Insone, livro colhido da estante ao acaso, volto às crónicas de Cristovão Tezza de Um Operário em Férias (Record, 2013), autor que vejo com alegria também publicado na Noruega. E à crónica, Leituras. «Às vezes uma leitura se preserva durante décadas não exactamente pelo que estava escrito, mas pelas circunstâncias e espírito do tempo que se marcam como pontos de referência de uma vida inteira», assim começa a crónica, e acaba:

«Infância, de Graciliano Ramos, vem à memória num trem para Morretes, lido num vagão de segunda classe com os bancos vermelhos de ripas, que deixavam o traseiro do freguês igual a uma carambola.

A trilogia Sexus, Nexus e Plexus, de Henry Miller, comprada num sebo, me lembra a escada do prédio de casa, que subi de quatro em quatro degraus, para devorá-la às escondidas – naqueles tempos inocentes, sexo se aprendia com literatura»

Não foi o meu caso, lembrar o livro pelas circunstâncias em que foi lido pela primeira vez. Não lembro sequer onde comprei. Creio que no sebo Capricho em Curitiba, a julgar pelo marcador de página que continua dentro. Na crónica seguinte, Um Mundo sem Sebos, Tezza, discorrendo sobre leitura em digital ou em papel, deixa esta verdade de bibliófilo: «Seria muito triste um mundo sem a delícia dos sebos, dominado somente por abstrações digitais – e sem capas

Confesso que neste, não conhecendo ainda o autor, foi a capa que me conquistou, e o título. Título de uma frase da crónica Prazeres da casa: «O homem caseiro é, antes de tudo, um operário em férias – há um prazer de infância na maleta de ferramentas, uma chave de fenda, a fita isolante, o formão (…)» Lembro sim, de ao ver isto começar, sei lá porquê, a cantarolar a canção de Sardou:

La classe ouvrière
Le front populaire
Et le Président Lebrun
Dans l’usine en grève
Tout le monde rêve
De voir la mer à Saint-Aubin

Com o passar dos anos, esta crónica, Leitura, tornou-se lugar a que volto, ao trem  para Morretes, com os bancos vermelhos de ripas, que deixavam o traseiro do freguês igual a uma carambola. Ali, em Morretes, já viajando em bancos mais confortáveis (pouco) encontrei o que me pareceu o rosto da old Madge, For that old Magde cames down the lane, o rosto de uma linha. A crónica, pela referência ao sítio geográfico, ficou associada a um dos primeiros (e um dos meus favoritos) posts aqui do Âncoras.

 

 

 

 

 

 

Sobre soliplass

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