Independência de leitura e julgamento: lemos com os olhos de quem?

Felizmente guardei, num post aí para baixo, a foto. Tinham finalmente chegado os livros há muito pagos, por junto como os portes, pelo correio.  Evoca uma irritação e um momento divertido.

A irritação era não conseguir encontrar todos os livros de Rentes de Carvalho naquele tempo. Tinha começado a ler o blog, havia, dos novos, dois ou três publicados pela Quetzal, o resto (dos antigos) outro remédio não houve que encontrá-los em sebos do Brasil, parte recorrendo aos serviços do site Estante Virtual. Um deles, teimava em não chegar. Tinha-o comprado a um sebo nos confins do Brasil, em qualquer cidade de Rondônia, passaram dois meses, tardava. Bem pensei que tinha levado a banhada… o outro exemplar disponível estava em Londrina, ali no Paraná, mas eram quase quatrocentos quilómetros. Equacionei pegar no carro ali em Curitiba e ir lá comprá-lo. Tique, ou pensamento, desmesurado de bibliófilo…

Para quem conhece o mundo dos sebos de Curitiba, mesmo para um leitor àvido, em permanente busca (como o Relvas, nossa grande referência), ir fazer quase oitocentos quilómetros de ida e volta por um livro, é uma parvoíce chapada. Nos mundo dos sebos de Curitiba, que neste blog se tem elogiado e descrito com abundância e tautologia, onde encontrei grande parte do Galeano traduzido por Nepomuceno, existem milhares de volumes vendidos por tuta-e-meia, tanto em língua portuguesa como em outras. Stendhal ou Orwell, Akhmatova ou Verlaine, Eça ou Camilo, Roa Bastos ou Benedetti, Quevedo ou João Palma-Ferreira, Blixen ou Lampedusa. Dos brasileiros Monteiro Lobato, Graciliano, Ubaldo Ribeiro, Veríssimo(s) – do Érico pai ao Luís Fernando filho -, já para não falar dos paranaenses, Dalton, Pellegrini, Leminski, Tezza, são às centanas, ou milhares. Daí a irritação. Porquê então aquela minha avidez de deitar unha ao livro de Rentes?

E logo a seguir, o momento divertido, que na altura me fez rir de tão óbvio: o que me diz a mim, que o impulso é independente do que li e sei desses autores ali à mão de semear nos sebos? Em que parte, o que escreveram, os valores por que pugnaram, determinam o meu interesse em ler os livros dos outros, neste caso específico os de Rentes? Em que grau me ordenavam eles a viagem a Londrina?

Vem isto a propósito de um cronista. Ou de vários. Por circunstâncias da vida, um dos meus grandes amigos é filho do jornalista e tradutor Åke Fen, conhecido homem da resistência norueguesa, de quem pela voz do filho ouvi inúmeras histórias, divertidas ou trágicas, de quem li Nazis in Norway. É quase natural o meu interesse por um outro famoso jornalista norueguês da mesma época, Ragnar Vold, talvez o homem que de forma mais lúcida denunciou os perigos do nazismo (ainda como correspondente do Dagblad na Alemanha até à sua expulsão em 1933 e já depois de volta ao país natal) e do estalinismo (crónica sobre o desapontamento de Marika Stiernsted com a visita à União Soviética, de 16 de Abril de 1935, por ex.), volto frequentemente aos avisos que escreveu.  Meste livro, Motstand (Resistência) as suas crónicas e artigos no Dagbladet de 1930 a 1945, coligidos pelo filho também meu conhecido, o poeta Jan Erik Vold, são um documento precioso para se compreender como os perigos dos totalitarimos foram adivinhados pelo humanista, primeiro, e vividos, depois. Na contracapa, a foto de Ragnar Vold, e o fac-simile (em baixo) da letra de Knut Hamsun chamando-lhe «um merdas». Vold tinha-o criticado, entre outras, por ter atacado Carl Von Ossietsky ao ter sido este agraciado o Prémio Nobel da Paz (a única cerimónia a que um rei norueguês faltou até hoje), prémio que o famoso romancista tinha proposto para Hitler e Mossuolini dois anos antes (crónica intitulada Carl Von Ossietsky, de 22 de Novembro de 1935:

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Tudo isto, que já vai longo e a apontar para paragens nórdicas e sul-americanas, a respeito de quê, concretamente? Ah, de como lemos com os olhos dos outros que de uma forma ou outra nos marcaram e transmitiram valores e exemplo também…

Tenho-me dedicado aí num post de há dias a uma divertida troca de comentários com um dos cronistas que um dia destes afirmei ser um dos melhores nacionais. Coisa que o dito cronista protesta ser gentiliza. A grande questão é: gentileza de quem? Em que medida sou eu que o afirmo, em que medida será o que sei do homem da foto que o afirma? Em quanto está o que sei da luta e do humanismo de Galeano ou Vold presente? Quando lemos, quando avaliamos, fria racionalidade ou gentileza àparte, fazêmo-lo exactamente com os olhos e avaliação (ou soma de pensamentos valorativos) de quem? Em que grau sou só eu que leio as crónicas do Daniel Abrunheiro e não o Steinbeck dos deserdados, ou a Gunvor Hofmo que, para honrar a memória de Ruth Maier queimada em Auschwitz, no norueguês moderno quase teve que inventar uma nova língua para nos seus poemas lhe erguer uma «catedral de luto» (o termo é de Jan Erik Vold), a espreitarem por cima do ombro?

 

Sobre soliplass

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