A grei e os notáveis

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Há umas semanas atrás. 2 de Dezembro. Levantámos cedo, ainda escuro, aquecemos uma chaleira de água para o café no fogão de lenha, comemos um pequeno-almoço improvisado e rápido. Nada como o crepitar de lenha e o cheiro de café para começar o dia e espantar o frio. Fora da cabana o termómetro marcava oito negativos. Silêncio. Cortado, a espaços, pelo apito do comboio na linha de Jøvik. Há, segundo ouvi, a obrigação de apitar ali, na zona de travessia dos alces, numa tentativa de proteger a vida selvagem.

Descemos ao vale pelo caminho mais longo (o carreiro do penhasco que dá acesso directo à cabana é perigoso de descer neste tempo de gelo), mochilas às costas, as botas fazendo ranger a neve (ele caminha ali a minha frente parcialmente encoberto pelos ramos da árvore em primeiro plano). E era, esse ranger abafado, o único som. Ao redor, silêncio. Notamos as pegadas de raposa, num local onde um ribeiro se espraia, onde há água ainda por baixo da neve, de alce. Para leste abre-se a faixa de luz, Eos dos dedos róseos afasta a cortina da noite. Sempre me encantam aqui estas travessias de floresta intocada, limpa e ancestral, onde não houve mão humana nem se encontra artefacto ou detrito. E admiro o cuidado deste povo com a natureza, o quanto gostam da floresta.

A meio quilómetro do sítio desta foto está a pedra. Uma pedra redonda onde sempre pára a relembrar a mãe. Mulher notável que ajudou a fundar a ONU. Era nessa pedra que, nas vindas à cabana, já idosa, cansando-se já mais facilmente, pousava a mochila e se sentava a descansar. Ali parámos de novo, é-lhe impossível passar pela pedra da mãe sem parar, tornou-se-lhe como que um monumento pagão, um lugar de culto da memória que dela guarda.

Poderíamos imaginá-la através desta estátua. Uma mulher comum, com sapatos de caminhada, sentada numa pedra, velha mochila bergans ao lado, contemplando o horizonte. Passei-lhe perto na últim a quarta-feira, no parque do palácio real em Oslo. Foi assim que a rainha Sonja aceitou ser representada. Como uma mulher confundida com o seu povo, em quem pesa a responsabilidade, entre outras, da apologia do património natural do seu reino. Dela, e da estátua, dos seus hábitos, o príncipe herdeiro, apresentou na altura estes considerandos.

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Aprecio estas coisas. Esta informalidade, a falta de solenidade e gravitas. Entre nós, a coisa pia mais fino. Aceitamos (que digo eu? exigimos!) sermos representados e termos como símbolos  o tipo de chimpanzé que melhor veste em Rodeo Drive. E tudo isto acaba mal, quase sempre. Porque da imponência dos figurões, acaba por sobrar retrato triste e vergonhoso. Não necessariamente por pincel e tinta e tela. Pode ser por letra. Da espécie deste que Perez-Reverte deixou de Rajoi.

 

 

 

 

Sobre soliplass

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