Oração fúnebre

Passou um ano desde que partiu o meu hoplita. Há duas semanas e pouco, fui também oferecer algum consolo ao homem que me tinha perfumado a roupa (e a casa depois) de cheiro de bedum de cabra e pêlo de cão. A mulher, há muito demente e acamada, tinha falecido. Sentado ao lado do esquife com o fato escuro “de ver a Deus”, magro como sempre o conheci, triste. Imaginei que o filho, ao volante de um camião em qualquer parte da Europa, não poderia ter chegado a tempo ao funeral. Talvez eu, que lhe elogiei a face bonita e serena da falecida, pudesse ser em algum grau um substituto. Afinal, na mulher de cabelo claro e pele rosada, sempre vi um sorriso benevolente de mãe. Assim me lembro dela.

Saí da capela para o ar frio, para a luz intensa da tarde. Exactamente o mesmo tipo de luz, o mesmo tipo de dia claro de inverno de quando o meu pai foi a enterrar há um ano atrás. Os dois davam-se bem, o meu pai que não foi «comichoso», sempre o autorizou a apascentar as cabras nas terras que foram suas. Ainda que seu, sendo de ensejo, que aos outros aproveitasse

Nesse dia de há um ano atrás, à medida que o cortejo avançava para o cemitério enfrentava um dilema: deveria fazer, perante o acompanhamento (maioritariamente gente da aldeia ou das redondezas) um pequeno discurso ou apologia? Coisa que entre nós não é costume? Coisa que admiro na tradição dos países do norte? O tipo de discurso em que a palavra viva e corrente contrasta com a da batida “chapa 5”, sempre igual, dita pelo sacerdote da tradição católica? Não me consegui decidir a não ser no último momento. Sabendo que, mesmo dentro da família, quem me considera tonto e parvo, insolente e arrogante, escandaloso, amigo de faltar ao respeito ao que não o merece (adjectivação que tenho ganho com algum proveito), me censuraria por fazer diferente.

A visão da mesma porta do cemitério onde há mais de quarenta anos se sentavam três miúdos de uma família pobre (miserável à escala de hoje)… vínhamos da azeitona, caía a noite, e uma chuva morrinhenta e fria. Na porta do cemitério, sentados no poial e aquecendo-se mutuamente, dois rapazes em idade escolar e uma irmãzita mais nova, esperavam que a briga passasse em casa. Se casa era. Um casebre de adobe, uma única divisão negra de fumo para os pais e os seis ou sete filhos, telheiro do forno ao lado onde se abrigava também a burra e a carroça. Olhou para aquilo desgostado, não quiseram vir dali, deixou-lhe abrigo com que se tapassem e o resto da cesta do almoço. A memória da sua capacidade de justiça e partilha acabaram por levar a melhor. O seu amor pelos bichos o seu sentido de igualdade. Coisas de enaltecer, e nisso, os versos de Shakespeare que desvalorizam a posição social, exaltando a nobreza da bondade, são explícitos; na elegia funerária de William Peter,

 

(…)Birth, blood, and ancestors, are none of ours,
Nor can we make a proper challenge to them,
But virtues and perfections in our powers
Proceed most truly from us, if we do them.
Respective titles or a gracious style,
With all what men in eminence possess,
Are, without ornaments to praise them, vile:
The beauty of the mind is nobleness.
And such as have that beauty, well deserve
Eternal characters, that after death
Remembrance of their worth we may preserve,
So that their glory die not with their breath.(…)

 

Comovido, mal vendo as pessoas que ouviam, tal o brilho do sol que me dava em cheio nos olhos (a entrada do cemitério é voltada a oeste) relembrei o quanto o apreciava, os seus traços de carácter, o companheirismo no trabalho, o seu amor pela natureza, o culto das árvores. O gosto pelos cães.

O padre que celebrava a cerimónia, e a quem pedi autorização para o pequeno discurso, não me pareceu muito satisfeito ao concedê-la. Nem com o que ouviu. Apologia de bondade e trabalho, da alegria de viver, um handsome sailor de Melville que ficou em terra… Felizmente, não lê aqui o Âncoras, não tinha lido isto… o manhã de ceifa.

Sobre soliplass

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7 respostas a Oração fúnebre

  1. suponho que não te apeteçam comentários, e por este, for the time being, me ficarei: o meu lobo domar ‘foi-se’, dizem, há 24 anos. Para mim, está vivo, corre-me nas veias (e no carácter, apesar de a minha mana e o meu mano mais novo terem herdado os traços fisionomicamente mais óbvios), não se foi.

    o meu/nosso (manas e manas) corto maltese já só necessitava de netos, conheceu dois ,leu imenso, viajou mais ainda, mas há isto: eu não conseguiria falar na cerimónia fúnebre, por isto:
    – ele odiava estas cderimónias
    – eu também

    de resto, vive (ainda 🙂

  2. Fernando Lopes diz:

    Um homem deve fazer o que dita a sua consciência. Uma elegia sentida tem maior valor que um milhão de palavras rituais.

  3. Hoje mesmo conversava com alguém que também conheces e surgiu essa questão:
    – o que é a consciência (de, claro)?
    (principalmente, nestas situações em que os afectos, as emoções, estão tão intrincadamente envolvidos)

  4. soliplass diz:

    Estas coisas, considero-as pouco cerimoniosas. Ali, no caso, foi até o quebrar de uma cerimónia, coisa que alguns me levaram a mal. Custa-me, que aos que partem, não se dedique mais que a batida ladaínha dos enterros católicos. E gosto de quando se evoca o quanto foi único e irrepetível aquele indivíduo. Não só aquele de quem fui próximo. Gosto deste tipo de evocações, como esta: (http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/jose-cesar-9852174). E gosto mais ainda quando são dedicadas a gente comum. E não apenas aos grandes vultos da sociedade.

    Por um lado, é uma forma de reconhecer que a vida não é só perda e tragédia; afinal tivemos a sorte de compartilhá-la com indivíduos únicos (o caso do irrepetível nosso Fernando com quem temos a sorte de partilhar os dias, haverá gajo mais delicioso?), por outro, e o poema de Shakespeare de que muito gosto é um caso dedicado a um indivíduo, um outro, e célebre, a oração fúnebre de Péricles dedicada a um grupo de guerreiros, é um momento evocação e de transmissão de valores.

    Aquele gajo era único. Uma vez fui dar com ele com um guarda republicano agarrado pelo colarinho. O guarda tinha sugerido que a madeira que ele transportava no camião poderia ter sido roubada. E o gajo não foi de modas… apontou-lhe um machado à testa (ainda está lá em casa) e abanava-o, convidando-o a repetir… Um original. Eu nem sabia que se podia fazer coisas daquelas à GNR. Ia lá agora deixá-lo enterrar ao som da ladainha «acolhei no vosso seio Senhor este vosso servo…»

    Servo, é vocábulo que nunca lhe assentou muito bem. Não lhe quadrava como embrulho.

  5. soliplass diz:

    desta casa sempre às ordens, e contente por sabê-lo cá. É capaz de gostar então também disto que é sobre bibliomania:https://ancorasenefelibatas.net/2012/12/12/bibliomania-on-board-ships/

    Falta, talvez, na lista de Jackson os buracos de neve em Hallingdal, que como pode ver é também bom sítio: https://ancorasenefelibatas.net/2013/03/12/leitores-em-buracos-de-neve/

    Cumprimentos cá do mar do norte & etc,

  6. GabrielP diz:

    obrigado pelas dicas e pela hospitalidade.
    As portas do Inútil estão sempre abertas. Disponha.

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