«kaaaaiii-kaaaiii-kaai-kaa-ka-ka-ka-ka» e «tontejanar»

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…”kaaaaiii-kaaaiii-kaai-kaa-ka-ka-ka-ka”, é um som característico do acordar em Oslo. Gaivotas. Há quatro semanas, ao acordar no hotel com o grito queixoso e melancólico que Karl Ove Knausgård grafa assim no seu segundo romance publicado, apercebi-me do quanto me fazia falta o som omnipresente na cidade, tantas vezes o primeiro que se ouve ao acordar. Romance meio chatito para um agnóstico como eu, com muito anjo e muita bíblia, deste «Um Tempo para Tudo» lembrava-me desta passagem onde se relata o primeiro apontamento escrito – no início do séc. XVII por Peder Claussøn Friis, pastor em Audnedal e Stavanger – e a migração das aves para as terras do interior onde seguem os tractores como se barcos de pesca no mar. Fui por ela; passando por alfarrabista, por tuta e meia, comprei o romance e lá estava o estimado “kaaaaiii-kaaaiii-kaai-kaa-ka-ka-ka-ka”,

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Na passada sexta, ao limpar uma das terras que herdei do meu pai, chega o Vitor alfaiate (o agulhas) e vai de prosear daquele trabalho ciclópico a que me entreguei sozinho. Aprova e elogia. Sempre grato porque lhe damos a água das lagoas para a rega numa propriedade que tem a jusante, diz que se eu precisar de ajuda… peço. Preciso de cortar um tufo de roseiras bravas que cresceram a alturas desmesuradas, peço se o puxa já atado com corda e corrente com o tractor enquanto eu corto.

– É melhor é, que se elas caiem pra cima de ti e t’adregam a caçar as costas riscam-te todo!

Bom homem o Vitor. Homem de trabalho desde menino, sem prejudicar o semelhante em palavras ou acções, queixa-se que agora reformado sente falta do trabalho. Mais diz: que tem que andar ocupado, parte das vezes em trabalhos e bricolas que não lhe dão interesse (monetário) nenhum.

– É pá, farto-me prá’aí de tontejanar só pra nã tar queto!

«Tontejanar» ou «tont’janar» é palavra corriqueira por ali, fazer coisas tontas, sem propósito, que tanto se aplica a trabalhos esforçados como a folganças. Tal como o grito queixoso e melancólico das gaivotas de Oslo “kaaaaiii-kaaaiii-kaai-kaa-ka-ka-ka-ka” é som formoso, pelo menos na voz de gente boa, como  a daquele. Pena é que entre nós – com a mania nacional da correcção ortográfica, que mais mal provoca que bem – raramente se ache escrita. Mas também, entre nós, a palavra do povo, mais que a dos bichos, é coisa espúria, imprópria, desagradável.

 

 

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