Dos livros, da leitura… e da mobilidade espiritual

No esplanada do café, um casal (professores do secundário, reformados, fardados como tal e por conseguinte tratados por dr/a quando servidos) lê, revezando-se, o Correio da Manhã. Radioso destino, uma vida a iluminar e esclarecer as mentes dos jovens pupilos com a cultura e o saber, desaguado ali no chafurdo das páginas do Correio da Manhã, chabanco dos mais turvos. É provávelmente uma das extravagâncias (das mais caras) do país, este dar-se ao luxo de ter uma classe ensinante cuja fonte de informação impressa principal é tal chabanco. Ou aleijão em forma impressa.

Não deixa de me maravilhar esta falta de pejo ou pudor, esta exibição pública de mobilidade social desfazada da espiritual. O vil metal, o degrau acima na escadaria da sociedade, é osmose mais convidativa que a cultura e a erudição que não seja meramente instrumental.

Ocorre-me aquela, por Marie-Hélène Lafon ficcionada, Jeanne (uma das personagens da França rural da colecção de novelas que ganhou em 2003 o  prix Renaissance de la Nouvelle ):

 

“Jeanne tint dans ses mains des livres dont nul, avant t elle, dans la litanie paysanne des siens, n’avait su, soupçonné, ou espéré l’existence. Quelques-uns, ou quelques-unes, sans doute, avaient, avant elle, mâchonné des lettres indécises, vaguement apprises, lentement dégluties et oubliées, tombées dans la désuétude certaine de ce qui ne nourrit pas. Les livres n’étaient pas dans la mémoire des siens, pas du côté de son sang. Patiente et seule, elle apprit. Elle apprivoisa les contours du monde noveau de tout son corps mince et dur de jeune fille résolue. Elle apris avec son corps, et, la première, Jeanne detourna pour le travail des livres la ténacité longue de ceux qui, avant elle, s’étaient nourris de la terre, frottés, usés contre elle, et d’elle avaient joui. Elle employa la ténacité ancienne au travail de la gramaire et de l’arithmétique, de l’histoire et de la géographie, des pays improbables et des dates enfouies, des opérations infaillibles et des exceptions mémorables. Elle étudia  avec application, sans curiosité ni passion, élans autorisés aux seuls enfants légitimes du savoir, enfants de familles. Elle étudia comme on laboure, pour manger. Elle eut son brevet, un brevet d’institutrice. Elle ètait la première, la primière et seule.

Marie – Hélèle Lafon, Liturgie – nouvelles, Buchet /Chastel, Paris, 2002 (pp. 65-6)

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