Ralhetes a paneleiros e a redução de IRS

Colega há vinte e cinco anos, paneleiro (usemos aqui o termo depreciativo), efeminado, ralho frequentemente com ele. No mais dos casos em forma de pilhéria, chamando-lhe mestre da camuflagem: «vais prá cidade, dizes-te paneleiro quando apanhas as gajas bêbadas, que podem dormir lá em casa sem perigo, que não é essa a tua praia. Depois a meio da noite já trancas garrocha nelas como em cabra velha. E depois claro, fica para nós os hetero pagar as pensões de alimentos quando ficam grávidas. Nunca foram vocês…»

Por norma ri-se, divertido, transformado pela pilhéria em muito mais macho latino que eu. Hoje o ralhete foi diferente: com um ar abatido e cansado chamo-o de parte e digo que não pode trabalhar até à exaustão. Cuidadoso, competente, voluntário, com o passar dos anos tornou-se um dos esteios principais da equipa. Chamou a si demasidadas responsabilidades, há dias em que não consegue fazer tudo o que acha que é seu dever. Em grande parte isto acontece porque é estimado por todos e sente que deve aos outros fidelidade. E com cooperação e fidelidade é pago por nós; os que trabalhamos com ele.

Na sua grande maioria os paneleiros, os homossexuais meus colegas, são um recurso precioso da empresa. Outro recurso, é a proibição estrita de (entre outros), por motivo de orientação sexual, assediarmos ou achincalharmos um colega. Implica, ou punição severa ou despedimento. Essa igualdade, esse respeito pelos outros, sejam paneleiros ou fufas (usando de novo os termos pejorativos), essa tolerância e sentido de justiça é, quanto a mim um dos maiores recursos económicos noruegueses. No fundo, uma demonstração da tese do “romance distópico gay” de Fabio Canino: Rainbow Republic

Faz agora em Setembro vinte e sete anos. Era encarregado nesta fábrica, creio que desactivada hoje (estas coisas foram reais, tiveram tempo e lugar) olhava desesperado para umas paletes de peles, 3600, se não estou em erro. Era ali encarregado, e, na sexta-feira anterior, o patrão e os gestores da uma outra fábrica do mesmo grupo (esta, hoje pertencente a outro proprietário) vieram perguntar-me, dado que havia pouco que fazer na outra fábrica maior, se eu não tinha trabalho para adiantar. Disse que sim, entre outros trabalhos, que aquelas 3600 peles (em rigor croutes) de má qualidade, destinadas para serem transformadas em forros (tipo de pele usada para forrar o interior dos sapatos) poderiam ser processadas de imediato e armazenadas para acabamento e venda posterior.

Passados dias, voltaram, prontas. Recurtidas, amaciadas, lixadas, prontas a serem coloridas e transformadas em camurça. Ou seja, prontas para deitar fora. Sem préstimo algum que não fosse lixo. Motivo, o encarregado, na parte da tarde dessa sexta-feira, certamente já com umas aguardente no bucho, deu a ordem errada. E os operários, fartos de serem oprimidos e maltratados, por retaliação cumpriram-na para o entalar. Para que ele ficasse com a culpa do erro e prejuízo. Cada um deles (experientes, nas oito vezes que pegaram à mão em cada pele durante o processo), viu que estava a fazer a coisa errada. Ainda assim, acharam que estavam no seu direito de, dessa forma, se vingarem dos maus-tratos, das diferenças salariais, das condições insalubres em que trabalhavam. Que eram reais.

Sentei-me ali um pouco a olhar aquele bonito serviço, em operação aritmética simples, a multiplicar aquele episódio isolado pelos milhares de empresas nacionais. Foi aquele episódio, e a multiplicação por milhares de episódios semelhantes, o principal motivo de ter procurado vida noutro país.

António Costa veio com a proposta de redução de 50% no IRS para os emigrantes que pretendam regressar ao país e a medida gerou polémica, os tradicionais prós e contras. Por mim, não tenho grande opinião sobre o assuunto, nem os 50% de IRS seriam incentivo de monta. Está talvez no seu poder (e até isso é duvidoso) oferecer esse benefício. Mas há uma constelação de outros impostos ou corveias quanto aos quais não pode fazer grande coisa. O que a EDP, a Galp ou a Brisa subtrai diáriamente ao bolso do zé pagante, por exemplo. Mas acima de tudo o imposto pesadíssimo que todos pagamos pela acrimónia constante contra o próximo, o espezinhamento do outro, a vigarice, a humilhação gratuita. Que geram sabotagem, desconfiança e ressentimento. E um viver feio. Os custos económicos para o funcionamento do país são enormes. E o dano psicológico incalculável.

À sua maneira o meu pai, nos conselhos que me dava, resumia a coisa desta forma: «Olha que muito fraco e ordinário é um home que só pensa em andar por í a fazer pouco dos outros». Era (segundo ele) fraca semeadura:

 

«Nunca é um home tã valente que não precise dos outros numa ocasião qualquer. Vai-se aí numa estrada, arrebenta um pneu ou um home distrai-se, dá uma cachaporrada de frente num pinheiro ou numa pedra, lá fica sabe Deus como. Apega-se-lhe o fogo em casa, vê-se abaganhado se nã lh’acode um vizinho. Se há um bezerro que dê uma cornada, ou uma besta um coice, qu’é a defesa deles coitados, tal e qual os cães c’os dentes e os gatos c’as unhas, nem ele há que esperar outra coisa, lá fica um home estendido de borco aí no meio d’uma terra a jeito dos corvos lh’arrencarem os olhos à bicada… Náá!!! Nã é cá preciso andar a escardear os outros qu’isto a vida e as horas d’aflição chegam prá gente todos. Prós fortes e prós fracos.»

Sobre soliplass

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5 respostas a Ralhetes a paneleiros e a redução de IRS

  1. se há cousa que adoro é verbo novo:

    escardear, já não me esqueço 🙂

    e mil honras para a memória do teu pai (o meu falava diferente, mas quantas vezes se lhe escaparam – ou jamais as esqueceu? – tantas palavras de encanto assim, vindas lá da pequena aldeia onde nasceu?)
    __________
    p.s. – tenho a certeza que o garoto cão se alembrou da sua dona de belos ombros 🙂
    p.p.s. – e boas férias para ambos 😀

  2. Adorei adorei, adorei, adorei.

  3. soliplass diz:

    Escardear, no uso local, significa maltratar, ferir, incomodar. Dizia-se por exemplo do gado de trabalho, bois, mulas, burros ou cavalos que por terem sido maltratados se tornavam ou agressivos ou medrosos que estavam (ou andavam) escardeados.

    Quanto ao cão, já não tão garoto assim (já passou os trinta e cinco quilos) não lhe fez a festa que eu esperava. Mas também, na sala do aeroporto havia uma imensidão de gente o que o deixa excitado e desatento. Está impossível de descomandado. O amigo que toma conta dele as duas semanas que estou fora levou-o de férias para a barragem de Castelo de Bode. Uma casa à beira de água, várias famílias, quinze crianças e adolescentes. Passava o tempo dentro de água e na brincadeira com aquela tropa toda. Resultado, agora chega à praia todos são amigos dele, mete-se em cada peladinha de bola, quer brincar com os outros cães, rouba raquetes se o deixarem e abocanha pranchas… é um circo. Tivemos que deixar de o levar.

  4. mari diz:

    Não lembrou e isso era óbvio pelo pouco tempo de convivência em maio… rendeu apenas o meu comentário: “sou apenas mais uma em sua vidinha de cão”.

  5. zelisonda diz:

    “Chapeau !”

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