Jon Michelet – O último romance da saga «Um herói do mar»

O escritor norueguês Jon Michelet faleceu a 14 de Abril deste ano e a Noruega rendeu-lhe homenagem. As televisões, a rádio, a imprensa (o artigo do Aftenposten do funeral e cerimónia na igreja de Rygge)jornais nacionais ou locais, os livreiros que nas suas montras expuseram edições antigas ou modernas das suas obras. Foi escritor prolífico sobre temas variados, sendo mais conhecido até há poucos anos como escritor de policiais. Nas montras de Oslo, alguns dos seus títulos:

Na altura, voltei a um dos seus títulos mais conhecidos: O Orions Belte, um romance de aventura cuja cena é o Ártico num tempo ainda de Guerra Fria, que foi adaptado para o cinema e que foi também um dos maiores sucessos de bilheteira para filmes noruegueses.

IMG_20180417_183529

Michelet foi marinheiro, activista político de esquerda (em toda a sua vida sempre tomou parte pelos mais fracos da sociedade), jornalista, editor. Em parte é a ele que devemos o desenvolvimento da editora Oktober, da qual foi director e que é hoje uma das editoras norueguesas que publica autores e literatura da melhor qualidade.

A a grande popularidade e notariedade de Michelet foi, no entanto, alcançada com o romance En sjøens helt, «Um herói do mar», romance histórico gigantesco, seis volumes, a saga de um rapaz que é apanhado pelo eclodir da Segunda Guerra Mundial embarcado em navio mercante norueguês, e que, ao serviço da marinha mercante que recusou servir Hitler, vai viver toda a espécie de aventuras e sofrimentos, de medos e de angústias. E conhecer o amor de uma enfermeira irlandesa com quem se encontra nos poucos dias em que as cargas ou descargas o levam a porto inglês. Mas é a saga também de toda uma classe profissional, que de civis, num ápice se vêem transformados em combatentes no conflito mais mortífero da História. Os chamados «marinheiros de guerra» noruegueses. Michelet faz justiça não só a noruegueses, que aliás viriam a ser traídos pelo seu próprio país no regresso já depois de cessado o conflito, nunca tendo recebido a compensação prometida, mas também aos estrangeiros que trabalhavam a bordo dos navios da frota mercante. Em muito, graças à atenção que os seus romances despertaram para a causa dos marinheiros de guerra, desde o primeiro, que foi um sucesso inesperado de vendas, existe hoje um organismo onde estão registados dados biográficos dos participantes no conflito, dos navios onde serviram, onde pereceram. Não apenas noruegueses. Também os de outras nacionalidades.  Entre as vítimas também se podem encontrar de nacionalidade portuguesa, como se pode ver aqui na página do capitão Finn Abrahamsen no relato que as autoridades americanas fazem do afundamento do navio tropedeado e das nacionalidades da tripulação. Infelizmente, do português, o nome não é registado.

O trabalho de investigação de Michelet para produzir este romance, todos o exaltam, foi ciclópico. E o seu espólio de documentação, entretanto doado, constitui uma fonte preciosa de informação para quem queira estudar a história marítima do país. A Noruega deve a este homem a homenagem gigantesca que, nesta série de romances, prestou a uma classe profissional e ao seu sofrimento. Deve-lhe a tenacidade com que o escreveu. Principalmente este sexto e último volume, Krigerens hjemkomst «O regresso do guerreiro» numa corrida contra o tempo. Doente, com cancro, em estado terminal, Michelet entregou a última página manuscrita A4 à editora uma semana antes de morrer. Foi já ela a escrever o posfácio.

Na sexta-feira de há duas semanas, saiu finalmente o sexto volume, com ampla cobertura da imprensa que celebrava a obra. Foi o lançamento literário do ano, a obra esperada.  Aqui, no comboio que tomei até ao aeroporto, o volume, e os artigos sobre o escritor e a obra no caderno central do Aftenposten:

IMG_20180919_145324

O romance não é isento de críticas. Mas onde uns vêem fraquezas, eu vejo uma das suas maiores qualidades. Michelet faz-nos viver o conflito pelos olhos, e com a linguagem simples e directa, espelhada nos seus diários, cartas, pensamentos, angústias expressas  e diálogos, de um rapaz de uma família proletária de uma zona florestal norueguesa. O resto, a boa literatura, a variedade de linguagem, a evocação da geografia, da astronomia, da ciência da navegação, da história, está descrita à sua volta. Como cenário. Um cenário prodigioso. Foi, quanto a mim, uma escolha corajosa. Uma escolha pelo rigor e pela verdade. Na Noruega sempre é um pouco mais fácil. Entre nós era impossível; escrever um romance de pescadores de bacalhau sem os fazer exprimir na mesmíssima linguagem que usa a Lili Caneças e os tipos das calças vermelhas de Cascais. Ou os da roupa negra da FCSH. Que dá no mesmo.

Uma enorme alegria, este romance por que esperava sem a certeza que Jon Michelet, já muito debilitado, o conseguisse acabar. E ao mesmo tempo uma enorme tristeza. Se pesquisarmos no Google «romance guerra marinheiros jon michelet» o resultado é triste. Parece que, de todos os vivem e trabalham na Noruega e que usam o idioma português, só a mim este «monumento cintilante» como um dia lhe chamou um crítico, impressionou. Questões de verbos no pensamento e no idioma, certamente. Sacar precede honrar. Honra a Jon Michelet que, em relação a uma geração de seus compatriotas em particular e à sua sociedade em geral, assim não fez.

 

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s