A leitora ao lado

Ao descolar de Paris rumo a Oslo, olhando as luzes da cidade lá em baixo, a elevação de Montmartre e o perfil iluminado da Torre Eifel, no reflexo da janela, mancha branca do papel contra o escuro da noite, via ao mesmo tempo o livro aberto que a velha senhora ia lendo ao meu lado. Um paperback batido (cujo título não vi), publicado em inglês. E há qualquer coisa de agradável, como um perfume ou melodia, em ver alguém a nosso lado entregue a esse prazer.

Quando me sentei à janela, pus o meu livro por uns momentos na bolsa da cadeira. A senhora, que entretanto se sentava depois de me dar passagem, olhou o título do meu (o último romance de Michelet) e disse, já em Norueguês e sorrindo, «tenho tanto desejo de ler esse livro mas estou em décimo quarto lugar na lista de espera da biblioteca. Se a biblioteca é onde mora, em Moelv, um pequeno município de cinco mil habitantes, uma lista de espera daquelas é um bom indicador de hábitos de leitura bem diversos dos nossos.

Em duas semanas de férias que revi mentalmente ali ao lado da senhora que lia, não vi quer em Santarém onde vivo, quer nas aldeias e vilas dos arredores, quem quer que fosse sentado em café ou paragem de autocarro, em esplanada ou na estação do comboio com um livro nas mãos. Nas províncias a situação é trágica. Não é apenas trágica quando pensamos no consumo de livros per capita; só igualado se atravessarmos toda a Europa dita civilizada e tomarmos em consideração esse exemplo de bom-viver que é a Roménia. É trágica se pensarmos em termos de distribuição.

Apostava a vida em como numa freguesia rural de mil habitantes se mil livros houver eles estão distribuídos mais ou menos da seguinte forma: cinquenta indivíduos terão duzentos livros em casa. Normalmente os romances (ou as resenhas deles) obrigatórios no ensino secundário. Em rigor nem são bem livros; foram instrumentos. Oitocentos e quarenta e nove nem os tem nem os quer. E depois há o indivíduo que tem oitocentos e gosta deles. Mas esse é maluco. E, normalmente, se não andar a pau com as opiniões que expressa em público, objecto de escárnio ou ostracismo.

Sobre soliplass

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