Alimento em vôo

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O romance de Lars Saabye Christensen lido no início do Verão (saiu entretanto o segundo volume da trilogia planeada) revelou-se uma agradável surpresa. Aliás, a crítica norueguesa não lhe poupou os elogios como se pode ver aqui.

É sempre com algum alívio que chego a esta terra, e encontro alguém das minhas relações sociais com quem posso falar de livros. E que valoriza os livros. Livros que explicam e descrevem quantas vezes aqueles de quem somos próximos, ilustram a vida que viveram de uma forma melhor que eles próprios sabem fazê-lo. Foi aqui o caso. No Romance de Saabye Christensen, a primeira parte descreve a zona de Mayorstuen, na parte noroeste de Oslo,  em precioso detalhe. Como era nos anos cinquenta, altura da infância e adolescência do meu amigo que aí também passou parte da vida profissional em adulto, como livreiro ou alfarrabista.

Isso mesmo me confirmava, certo dia de Agosto frente à escola que frequentou, o edifício da foto. Como as descrições das ruas e do comércio eram fiéis e detalhadas, o funcionamento da escola. De facto lembra-se ele próprio de, com a mãe,  frequentar os mesmos estabelecimentos de comércio local que o jovem protagonista do romance de Saabye. Meia centena de páginas deu-me para perceber como viveu e em que cenário. Contei-lhe que me impressionou uma imagem que o romancista deixa: era tal a abundância de padarias na área, tão agradável o perfume do pão cozido que se elevava no ar que aos pássaros, assim sobrevoassem o bairro de bico aberto, quase bastaria como alimento. De uma penada Lars Saabye Christensen transmite-nos o conforto de saber que existe comida naqueles anos do pós-guerra em que as coisas começam a ordenar-se. Em que a esperança, e a confiança no próximo, renasce. O romance é, aliás, em muito baseado nas notas da mãe do autor ( actas ou notas das reuniões do organismo caritativo Frelsesarmeen, variante norueguesa do Exército de Salvação) dando conta do enorme esforço do voluntariado de cidadãos comuns que, a par do esforço dos organismos do Estado, tentavam minorar a pobreza e escassez sofrida nos anos da Segunda Guerra mundial e subsquentes. E a incerteza, a insegurança.

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“Om morgene ligger det en duft av nystekt brød over bydelen. Fuglene blir mette bare av å fly med åpent neb.” «Pela manhã há um perfume de pão acabado de cozer sobre o bairro. Os pássaros ficam saciados só de voarem com o bico aberto».

A imagem é, certamente, pecadora por excesso. Mas ilustrativa. Evocativa de uma época em que voltava a haver pão abundante e a segurança disso. Para mim, é-o duplamente. Depois do acidente de vôo livre que quase me vitimou e que me fracturou a coluna, o regresso ao vôo em parapente foi feito em passos pequenos, em vôos que se foram tornando mais longos à medida que a confiança aumentou. Muitas vezes, interrompidos pelo medo e desconforto, com a aterragem a prevenir a irracionalidade ou o pânico. Até que numa tarde de final de Maio, passado um ano, um fenómeno a que chamamos restituição, elevou o ar quente do fundo do vale. Um ar perfumado e denso, como se nele viesse toda a beleza do mundo, o prazer de voar. Pela primeira vez depois do acidente quase fatal, soltei os comandos da asa, deitei-me na cadeira, de braços abertos; deixei a asa voar sozinha, “alimentada”, sustentada por aquele ar ascendente, carregado de aromas de erva e flores. Foi uns quilómetros a sul daqui, nesta mesma asa, num cenário idêntico…

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