O Anão

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«Neste livro encontras uma análise da natureza (essência) do fascismo, e tu és agora um soldado no combate contra ele.»

Era uma das lacunas pessoais em matéria de leituras e do conhecimento da literatura europeia. Nunca tinha lido O Anão, que um bom amigo e conselheiro, o do Diário do Purgatório, não se cansava de aconselhar. Veio parar-me este volume às mãos, a primeira edição, e tradução, norueguesa a partir do original sueco, de 1946 da editora Gyldendal.

Traz uma dedicatória datada de Junho de 1946, foi um presente de aniversário, do marido à mulher, com a frase acima transcrita : «Neste livro encontras uma análise da natureza (essência) do fascismo, e tu és agora um soldado no combate contra ele.» E os parabéns pelo novo emprego. O novo emprego era o tal de “soldado”, a mulher seria a partir dali a secretária pessoal do primeiro Secretário Geral da ONU, Trygve Lie, e iria participar activamente na construção de um organismo internacional promotor da paz e dos valores democráticos, pelas suas mãos passaria muito do trabalho de organização do esforço que conduziu à Declaração Universal dos Direitos do Homem.

À distancia de hoje, a classificação do romance de Pär Fabian Lagerkvist como análise do fascismo parece um pouco deslocada, simplista, ingénua. Somos quase tentados a perguntar se o autor da dedicatória, jornalista que sofreu o nazismo na pele, que foi prisioneiro num campo de concentração, autor de Nazis in Norway, director da secção norueguesa do United States Office of War Information, não teria uma melhor “análise” a oferecer. Provávelmente não. O fascismo, especialmente nos países que lhe sofreram as consequências, não permitiu a publicação de análises. Nem os estudos académicos sobre o tema. Os livros em geral, em 1946, e em particular numa área geográfica devastada pela guerra, são escassos.

Mas à sua maneira, o homem que dedica o livro à mulher “soldado”, tem a sua razão. N’O Anão está quase tudo. O ódio e o ressentimento, o desprezo pelos fracos e a incapacidade de empatia, a estranheza ao valor da cultura e da diversidade, a admiração pelo poder e pelo massacre e destruição. A amoralidade, o ódio destrutivo. A visão fixa das coisas e a incapacidade de aprender com a experiência por mais desastrosa que seja.

Neste tempo que se vai compondo de anões, é talvez, e quanto a mim, mas que sei eu disto?, uma boa sugestão de leitura.

 

 

 

Sobre soliplass

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2 respostas a O Anão

  1. redonda diz:

    Há alguns anos comecei a ler o livro e depois interrompi a leitura porque não estava a gostar nada do personagem…talvez deva dar-lhe mais uma oportunidade

  2. soliplass diz:

    É a coisa mais natural, não gostar do personagem. Só abona em seu favor.

    Na vida real vamos encontrando muito personagem com alguns traços malévolos do género daquele. Mas nunca, ou raramente, um concentrado daqueles.

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