Roer a corda

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«Olh’ó sacana levava o canivete no bolso… ‘péra aí qu’ele talvez agora se esqueça do alicate!»

Assim comentou o velho quando viu o meu pai chegar-lhe à porta. Tinha-lhe dado havia pouco um cão de caça; que o seguiu por pouco tempo. Atado com um cordel, em menos de um fósforo o estralhaçou a dente e voltou a casa. Solução, rápida e barata, foi fazer-lhe trela de arame de fardo.

Há umas semanas atrás, acabado o trabalho à noitinha, duvidei que o cão chegasse a casa. Tenho que o levar preso, perigo de atropelamento ou de causar acidente, de entrar quintais adentro em peleja com outros, mas a corda ia quase roída. Era a segunda da tarde. Aos oito meses, já aprendeu a usar o “canivete”, seu instrumento de liberdade. Outra solução não houve, entretanto, que a corrente.

A foto ficou mal, já lusco-fusco. Destinava-se apenas a mostrar o trabalho à minha mulher. Mais tarde, ao jantar no restaurante, enquanto o prato não vinha, entretinha-me a ler a peça de Jon FosseSonen – «O Filho». O encenador do teatro que a há-de levar à cena tinha-me pedido que traduzisse uns trechos, como sou menos versado na outra língua norueguesa designada por Nynorsk, li a peça toda para ter a certeza que não estava a traduzir fora de contexto. O prato veio, levanto os olhos para os circundantes. Bendita peça. Tinha perdido as madames com as famílas numerosas, muito ciosas do seu círculo social, o basbaque fixado no ecrã da televisão e no comentário do jogo e do golo polémico. E acima de tudo o doutor. O doutor (assim o tratam os empregados com deferência) encomenda garrafas de vinho, come metades grelhadas de camarão-tigre de entrada, aponta o cardápio com dedo preciso quando pede os detalhes, usa camisas brancas engomadas e botões de punho reluzentes. Espera a refeição, ou às vezes, acompanha-a mesmo, mal desviando os olhos da página, com a leitura do Correio da Manhã. Sem dúvida, a melhor cerise sobre o gâteau.

No meu caso, espero as refeições, ou vou mastigando as ditas, lendo do telefone móvel. Naquele dia, por obrigação cortês, a peça de Jon Fosse. Olhei pró doutor do Correio da Manhã e prás madamas, unhas sujas e terra nas botas, ri-me para o ecrã do telefone. Peça, blogs, google books, não diferem muito da ânsia do cão em se soltar para ir nadar nas lagoas ou seguir em correrias o tractor; são, no restaurante costumeiro, forma simples de roer a corda.

Sobre soliplass

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