Os trabalhos. E a chuva.

A manhã, com a sua camada de nuvens finas permitiu o trabalho já há muito adiado. Olival descuidado no planalto, dos troncos das oliveiras velhas cortados cerces, ardidas que foram, cresceram a trouxe-mouxe os novos rebentos. Sem poda ou arreio, está coisa esparsa e feia. Silvas, feno, ervas daninhas, arbustos. Três horas de corrida de grade de discos. Lá para o fim de Janeiro, ou em Fevereiro se podarão e se finalizará o arranjo do terreno. Hoje não deu para mais. Passado o meio dia a inconstância do vento e o escuro das nuvem a sudoeste pronunciavam tarde de chuva. E o cão não desistia… durante todo o tempo correu ao lado, ou atrás, do tractor. Tirando os momentos em que parei para fumar um cigarro e o presentear com umas festas.

Foi Michel Houellebecq (no La Possibilité d’une Île) que deixou a frase:

  «À travers les chiens nous rendons hommage à l’amour, et à sa possibilité. Qu’est-ce qu’un chien, sinon une machine à aimer ? On lui présente un être humain, en lui donnant pour mission de l’aimer – et aussi disgracieux, pervers, déformé ou stupide soit-il, le chien l’aime. Cette caractéristique était si surprenante, si frappante pour les humains de l’ancienne race que la plupart – tous les témoignages concordent – en venaient à aimer leur chien en retour. » 

Levou, já na velha casa do meu pai ração reforçada. Bem alimentado, no carro, de volta a Sul, dormiu que nem um justo. Já aqui no apartamento na cidade, em cima de um tapete dormiu toda a santa tarde enquanto a chuva metralhava as janelas e a fachada do prédio. Também eu li e dormitei. Folhei uma antologia de poesia espanhola seleccionada e traduzida por José Bento. Fui por ali dentro à procura de uma coisa específica e propositada para uma tarde de chuva e ócio; que talvez gostem: o poema de Juan-Gil Albert, Os Trabalhos.

 

     OS TRABALHOS

(homenagem a Hesíodo)

 

Não sei porquê tem sido sempre a chuva

para mim tão balsâmica. No verão

abre como um parêntesis, os calores

parecem descansar e o próprio homem 

deixa na terra enxadas e enxadões

e abriga-se, esquivo, enquanto olha

pela janela aberta desdobrar-se

essa rija cortina de luz branca,

património do céu. Só um cigarro

é então, nas mãos laboriosas

ao enrolar-se e acender-se, um passatempo

subtil, um abandono reflexivo,

um desertar que ninguém nos censura,

e com os olhos claros recolhemos

a música, o fragrante privilégio

da estação, a água, chove, chove,

suave e firmemente, e nós fumamos,

enquanto o pensamento se aprofunda,

se faz distante, ausente, perdidiço,

e fora vai chovendo lentamente

e ficamos mais isolados, mais absortos:

um ser dono de tudo, um não ser nada.

 

 

 

 

 

Sobre soliplass

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