Representação e literatura

É claro que rogo encarecidamente perdão aos leitores e leitoras aqui do Âncoras por trazer à vossa presença assuntos de lavoura, como o do penúltimo post; barro e lama, árvores descuidadas, pedras. Trabalho braçal. Um poema pescado numa antologia volumosa ainda vá que não vá …

Mas os 92 090 km² país são maioritariamente isto; abando e descuido, gente e trabalho que raramente são representados. Se os blogs e os jornais e a literatura o representam pouco, a “representação geográfica” política (parlamentar) é trágica. No parlamento representa-se mal, e tarde e a más horas, e sem convicção, frequentemente como arma de arremesso político contra os adversários, os interesses das populações dos tais 92 090 km². Uma vez, num mestrado, fiz essa investigação desoladora: o que fazem os deputados portugueses em prol do interesse das populações de um lugar geográfico específico. Daí toda a série de iniciativas de um deputado (exemplar) do PSD no círculo de Castelo Branco em dada legislatura, apresentada neste post antigo.

Hanna Fenichel Pitkin  em The Concept of Representation (1967), definiu a representação (política) como o acto de trazer de novo à presença :“re-presentation, a making present again”. Numa interessante sessão ou conversa que decorreu em Óbidos  com o sugestivo título «fora do lugar» falou-se da importância da literatura de temática local, histórias, contos ou romances cujo cenário é o mundo da província. À conversa com Hugo Mezena,  delicioso indivíduo que nos deu o excelente Gente Sériamencionei que além do mais, a literatura cujo cenário é o mundo rural, da província, tem um enorme valor de representação política. Traz ao conhecimento do público os problemas, anseios, dificuldades (pela re-criação de cenários credíveis indispensáveis à suspensão da descrença) da população cujo viver diário não acontece exactamente na Avenida de Berna. Ou de Roma.

É um dos meus pecados de infância. No final dos anos sessenta, ou início de setenta, não consigo recordar exactamente, e numa daquelas surtidas por quintais e asseguias a que os miúdos de província se entregavam para combate do tédio, incomodando este e aquele, mofando dos velhos, soltando bestas de carga dos palheiros ou escondendo carroças e ferramentas (na linguagem popular ” andar a fazer mal”) passámos pelo quintal de um homem que tinha sido albardeiro e que vivia num casebre de telha vã. Um dos mais velhos de nós, querendo espantar ou desassossegar o  velho, pregou um valente murro na porta. Para nosso espanto, a porta caíu no chão de terra batida. Não tinha dobradiças, ou gonzos. Era, simplesmente encostada. Ao pé de uma fogueirita a um canto, o vulto do homem, sentado no escuro, uma manta, ou saca de serrapilheira sobre as costas.

Passaram-se três ou quatro anos. Houve briga lá em casa por causa do homem. A minha mãe barafustava com o meu pai. O velho era meu tio-avô. Enquanto o meu avô paterno foi vivo, foi responsabilidade sua e do resto dos irmãos dar-lhe sustento. Mas os homens delegavam nas mulheres esse trabalho. O meu avô, sendo viúvo, como era uso, ninguém via nisso nada de anormal, pagava às cunhadas para cuidarem dele. Morto o meu avô, a minha mãe herdou parte dessa tarefa, creio que uma quinzena a cada três meses. E aí foi a bronca. Mulher de geração mais nova, deu com ele em estado lastimável. Sem roupa que vestir de lavado, cama de palha, louça pouca. No casebre, que simultâneamente tinha servido de oficina de albardeiro, amontoavam-se lixo, sujidade, as abegarias da arte, alguns restos de materiais que tinha utilizado para fazer as albardas, sua profissão e sustento enquanto se manteve activo ou houve bestas de carga ou de monta.

«Ai ó mê t’Jaquim, atão mas vocêmecê tá carregadinho de piolhos». Chamou a irmã. Aqueceram água. E lavaram-no. Coisa que, por pudor, não teria permitido às cunhadas, da sua geração. Mas as sobrinhas eram mais novas, lá acedeu…

Indignadas, as duas irmãs deram-lhe banho, vestiram-no de lavado. Arranjaram-lhe cama, compuseram-lhe banca e louça, onde comesse sentado. E a preocupação do velho não era que vivesse mal. Antes pelo contrário. Dependente das cunhadas e irmãs, a preocupação dele era que as sobrinhas fossem discutir com as tias por tê-lo deixado chegar àquele ponto…«ai ó cachopas, vocemês nã me vão arranjar inferno com as minhas cunhadas ó c’as nhês irmãs. Q’elas tratum-me tã bem, nunca me deixaram passar fome, nim elas coitadas podem mais, nã param de manhã à noite c’a lida da casa delas e c’a lavoira!» Só nessa altura percebi completamente a patifaria que foi alagar-lhe a porta uns anos antes. Mofar do velho. Ou, no dizer dali, «fazer pouco da miséria».

Aquele personagem do romance de Rentes de Carvalho O Meças, o velho que vende carvão pelas portas, que chega ao casebre e prepara a ceia, representa bem as dificuldades do viver dos idosos, viúvos ou solteiros de parco rendimento que havia pelas províncias. E que ainda há, aos milhares; hoje, felizmente com a ajuda das pensões de sobrevivência. Sem elas, era assim. Ou parecido. Ou pior. Quando li o romance, e esse é o personagem inicial, logo me lembrei dessa patifaria de infância. E da forma como viveu os últimos anos o meu tio-avô Joaquim Albardeiro. Nos anos subsquentes à sua morte o herdeiro deu um jeito ao pobre casebre. Mas na imagem da street view do google maps ainda se pode ter uma ideia de como era. Foi aqui que viveu.

 

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