Tempo, mundos, Moberg.

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No café, na aldeia, a meio da semana, passam as notícias da uma da tarde com a reportagem dos grevistas do porto de Setúbal a serem removidos. Acção da polícia, alguns deputados presentes. Sentado ao balcão, os olhos na televisão, grita um: «É dárin-lhe c’a cachaporra p’aqueles cornos abaixo!»

E o outro, a quem não é admitida grande conversa, por dela não ser capaz, por não ser da terra e por não ter de seu, grita de lá com voz fininha da mesa onde sorve a aguardente (provavelmente a segunda ou terceira) em apoio ao principal do balcão: «E olha que só s’perde alguma que caia no chão! Nã quérin trabalhar, ópois…»

Quando me criei, na aldeia havia a casa grande. O homem abastado. Quase o único empregador. Tinha lavoura. Forno de tijolo e telha. Fábrica de resina. Os salários pouco mais que nada. O pai do principal foi a salto para França. E ele, para evitar o trabalho assalariado que mal dava para a subsistência, a incorporação no exército e o destino mais que provável da guerra colonial, seguiu-o (preparativos em segredo ou vinha o regedor e a guarda) daí a pouco. Voltando, negócios falhados e património delapidado, regressou a uma fábrica onde o salário é um pouco mais que nada.

O outro, da voz fininha e da segunda ou terceira aguardente, veio parar ali pequeno, com sotaque do alentejo, o pai resineiro. Tão pouca era a fartura que (ao contrário de nós, os naturais da aldeia) nas nossas incursões a roubar fruta pelos campos, tudo servia de almoço; para remediar o jantar de ontem o não ter visto: vagens de ervilha ou fava, folhas de couve, rábanos ou cenoura arrancadas da terra e limpas às calças antes de roídos, pedaços de abóbora. A roupa era pouca e o telhado mau. E o “cão” da mãe (a dívida na mercearia) apregoado por volumoso, pela tendeira.

Tinha programado aquele trabalho que foi feito no sábado para essa tarde. Umas abertas de sol, o vento fraco. Ouvido aquilo, incapaz de os condenar ou participar na conversa e na algazarra que se seguiu, desanimei. Ia engatar a grade, ver o nível da água e do óleo do tractor, olhar a casa deserta dos meu pais…

Fiz umas festas no cão, trouxe-o da caixa de carga do carro para a frente, a meu lado e voltei ao apartamento na cidade, aos livros e ao sofá. Onde ainda conheço alguém…

Wilhem Moberg, publicou em 1963 um romance intitulado Din stund på jorden (O teu tempo na Terra) no qual descreve os últimos dias e meditações de Albert Carlsson, um emigrante sueco  que em 1962 vive os seus últimos dias (de uma vida que considera falhada) num hotel em Laguna Beach na Califórnia frente ao Oceano Pacífico. O romance, traduzido em inglês pouco tempo depois foi suficientemente importante para que o NYT lhe dedicasse um artigo, talvez pela importância da comunidade de emigrantes suecos nos Estados Unidos. Talvez porque Moberg era um escritor importante ao tempo, amigo de (entre outros) Steinbeck.

Albert Calrsson tinha regressado à sua Suécia Natal de onde havia partido em novo de uma vida de pobreza extrema. Regressado,  vê um país que já não reconhece, e onde já não é reconhecido. Lembra-se de uma história (lida agora e abreviada de uma edição de 74 da Norsk Bokklubben) que a avó lhe contava amiúde e que o tinha impressionado em criança:

Era a história de dois amigos. Tão amigos eram que prometeram um ao outro que no dia em que se casassem qualquer um deles compareceria no casamento do outro independentemente de se encontrarem em sítio distante. Um deles morreu entretanto. O outro casou. Na quinta (traduzindo o termo Gård, propriedade rural, por quinta) onde se realizava o casamento, o amigo ainda vivo, ainda que invadido pela felicidade do dia festivo, lamentava que o amigo falecido ali não estivesse. A meio da noite, bateram à porta. Era o falecido. Dizendo que nada o impediria de faltar à promessa sagrada (vir ao casamento do amigo), sentando-se num aposento nas traseiras da casa, do banquete da boda nada quis. Apenas pediu um copo de água e um punhado de terra por alimento. Mas quando o baile começou aceitou dançar com a noiva. Três vezes dançou com a noiva do amigo. Quando se preparava para partir disse ao outro: «como vês, cumpri a promessa. Agora é a tua vez. Também me caso hoje, tens que vir ao meu casamento.»

Não querendo faltar ao prometido, apesar de lhe custar deixar a sua jovem esposa, o amigo seguiu-o até ao reino dos mortos. Onde noutra quinta outra festa havia, rica de convidados e de banquete farto. Quando a música começou a tocar foi convidado a dançar também com a noiva do falecido. Três vezes valsou o vivo com a noiva do morto.

Regressou a casa, à sua quinta, depois de se despedir. Tinham passado apenas breves momentos desde que de lá partira deixando a sua noiva e os convidados. No local, nem sinal de festa, nem de noiva, nem de casamento. No local havia um novo edifício, habitado por gente que não conhecia nem o conhecia a ele. Nas vizinhanças, o mesmo. Tudo tinha mudado, os vizinhos eram outros. Dirigiu-se à casa do padre que o tinha casado havia poucas horas. Mas o bom pastor era também um estranho. Que do seu casamento nada sabia. Consultado o livro da paróquia, o padre constatou que tudo o que contava era verdade. Tinha havido casamento nesse dia mas o nome do noivo era o de um paroquiano morto. Tinha vivido na paróquia, e casado naquele dia, haviam já trezentos anos. Todos aqueles que tinha conhecido, os edifícios das suas quintas, tinham desaparecido há muito. Em cada valsa com a noiva do amigo falecido tinham decorrido cem anos. Nada mais havia a fazer que regressar (onde ainda conhecia alguém) ao reino dos mortos.

 

 

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