a constant stream/infusion of disastrous news

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Escapei às notícias de viva voz (e ao prazer de as difundir, de ser o primeiro a transmiti-las) sobre a queda do helicóptero. Em tempo de férias acontecem no mundo muito menos tragédias. No trabalho, há uma série de colegas que me lembram aquele Zvi Provizor do conto The King of Norway de Amos Oz. Cedo pela manhã, ao longo do dia, dirigindo-se a mim ou aos outros que se sentam por ali na sala de fumo do navio … «Atão, já sabes?», «Atão, parece que…»

O conto, publicado originalmente na NYT, descreve aquele curioso indivíduo que parecia ligado a uma corrente de tragédias e cujo relacionamento com os outros se baseava essencialmente em re-transmitir esse fluir de desastres e desgraças:

“On our kibbutz, Kibbutz Yekhat, there lived a man, Zvi Provizor, a short fifty-five-year-old bachelor who was given to blinking. He loved to convey bad news: earthquakes, plane crashes, buildings collapsing on their occupants, fires, and floods. He read the papers and listened to all the news broadcasts very early in the morning, so that at the entrance to the dining room he could astound us with the story of two hundred and fifty coal miners hopelessly trapped in China or six hundred passengers drowned when a ferry capsized in a storm in the Caribbean. He also memorized obituaries. He knew before anyone else which famous people had died, and would inform the entire kibbutz. One morning, he stopped me on the path by the clinic.

“Ever hear of a writer named Wislavsky?”

“Yes. Why?”

“He died.”

“Sorry to hear it.”

“Writers die, too.”

Another time he caught me when I was working a dining-room shift.

“I saw in the obituaries that your grandfather died.”

“Yes.”

“And three years ago your other grandfather died.”

“Yes.”

“So this one was the last.”

Zvi Provizor was the kibbutz gardener. He would go out at five every morning to reposition the sprinklers, till the soil in the flower beds, plant and prune and water, mow the lawns with the noisy mower, spray against aphids, and spread organic and chemical fertilizer. Attached to his belt was a small transistor radio that provided him with a constant stream of disastrous news.”

Em qualquer altura entre a escrita da versão publicada na NYT em 2011 e a publicação em livro em 2013 onde o conto figura como o primeiro da colectânea Between Friends (refiro-me aqui à edição da Vintage [Londres, 2013]) Amos Oz deve ter sentido a necessidade de alterar o termo stream. Na edição da Vintage (p.4) os termos são «… a small transistor radio that provided him with a constant infusion of disastrous news».

Talvez o termo «infusão» seja o mais adequado a este fenómeno, preferível ao termo «corrente». «Corrente» é termo mais neutro, lembra água; incolor, geralmente insípida e inodora. Creio que o termo que mais adequado a este tipo de indivíduos é mesmo «infusão». E, certamente, a julgar pela tautologia com que praticam o vício, bem saborosa.

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
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