les bons esprits se rencontrent, ou pas toujours – Homenagem mais que devida a Raquel Varela

 

“On pourrait dire avec plus de raison et d’exactitude que les bons esprits se rencontrent et le proverbe ainsi modifié serait plus vrai ; car le bon esprit, contrairement au bel esprit, a pour base ordinaire le jugement et la raison, deux éléments que ni le temps, ni les lieux ne peuvent changer. L’expérience prouve d’ailleurs que les bons esprits sont de tous les siècles et de toutes les nations, tandis que les beaux esprits ne sont souvent que des gens de désordre, infatués d’eux-mêmes.”

(In La France Pittoresque)

Quando, há uns meses, eu e o velho alfarrabista de Oslo parlamentámos sobre o romance de Lars Saabye Christensen Byens spor, veio à baila a doença que lhe tinha sido diagnosticada (cancro, no início de 2017) e a angústia de escrever em tais condições. E logo a similitude com as condições em que Jon Michelet (igualmente com cancro mas em fase terminal) completou a sua opus magnum (a que dediquei artigo aqui) foi também tema de conversa. Referi ao velho livreiro que o romance histórico de Michelet, sobre a saga dos marinheiros de guerra noruegueses (alguma vez será traduzido para português?) certamente agradaria a uma investigadora e professora universitária portuguesa: Raquel Varela. Que o exemplo deste homem que sempre ao longo da vida tomou partido pelos mais fracos (certa elite norueguesa nunca gostou dele por isso) certamente lhe agradaria.

Mas que o contrário também seria verdadeiro. Jon Michelet certamente que se orgulharia das posições públicas em defesa dos mais fracos da sociedade portuguesa que Raquel Varela consistentemente tem tomado. Nomeadamente no seu blog. Que é o que mais sigo. Les bons esprits se rencontrent… Pena que estes dois não se tenham encontrado.

Talvez isto seja uma forma muito pessoal de ver as coisas. Quando fiz a licenciatura de ciência política na FCSH o ensino era (apesar de classificada como a melhor licenciatura da área em Portugal, com médias de entrada altas, 17 valores no meu ano de ingresso, 1997) muito deficiente. Em parte, havia boa justificação. O campo científico era relativamente recente, e os da geração anterior (os docentes) não tinham tido quem os ensinasse. Ali, à excepção de Pedro Tavares de Almeida ou do (então jovem) Tiago Fernandes, na altura já um promissor pedagogo, poucos sabiam da poda. Era preciso frequentar as aulas (e ler as obras) dos docentes da nova geração de politólogos (Marina Costa Lobo, Carlos Jalali, Pedro Magalhães, André Freire, Manuel Meirinho Martins, Cristina Leston-Bandeira, etc.,) para se aprender mais qualquer coisinha.

Aquilo que torna Raquel Varela especial, é que não desistiu de defender os valores democráticos, a justiça social, de tomar parte pela camada mais desprotegida da população portuguesa. Manteve a sua intervenção pública, o blog aberto e activo. Ao contrário de alguns dos acima citados, que desistiram de ter intervenção pública nesta forma privilegiada de chegar a todos, não mediada e aberta que são os blogs. Se todos aqueles que têm pergaminhos e responsabilidades na academia portuguesa lhe tivessem seguido o exemplo, os atropelos cometidos pela coligação PAF, teriam sido um pouco mais difíceis. E menos “legitimados” pelo silêncio da Academia.

Não é que eu tenha grande esperança disso, mas se fôssemos país com um pouco mais de juízo e compaixão, agradecer-lhe-íamos, se não a opinião expressa e a posição tomada (com que podemos ou não concordar), pelo menos o exemplo de responsabilidade cívica e social que dá aos docentes das Universidades Públicas Portuguesa; les bons esprits que pelo silêncio se encontraram com Relvas e Portas, Maria Luís e Gaspar… Pela minha parte acho-me nessa obrigação e aqui fica.

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Sobre soliplass

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3 respostas a les bons esprits se rencontrent, ou pas toujours – Homenagem mais que devida a Raquel Varela

  1. lamento, acredita, que apesar do trabalho que desempenha, eu veja mais Ego do que qualquer outro fruto…

  2. soliplass diz:

    isso do ego até é bom e mais a arrogância de pensar pela própria cabeça e não pela cartilha da “sociedade respeitável” que andou pelas universidades da Junqueira e lê o Jornal de Negócios.

  3. 🙂

    tu na defensiva, eu na ofensiva?
    ná, aprecias o que escreve, eu abomino, só isso: em ambos, absoluta legtimidade, que é tão importante a diferença de pensamento entre leitores quando entre escribas e, de igual modo, o direito a optar por apreciar/abominar.

    tu sabes 🙂

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