Medos & receios

No tempo que passo em Portugal, raramente ando tranquilo. Há como que uma ameaça no ar que por todo o lado sinto. A tranquilidade, normalmente, surge já na cadeira do avião, ao descolar daqui.

Cultor da boa-educação e das boas maneiras, do cavalheirismo, não gosto de conflitos ou ofensas, nem os sei gerir. A não ser voltando costas e remoer a coisa até passar. Conflitos assustam-me. A maldade e a mesquinhez, a vigarice, o fazer pouco dos outros, o escárnio malévolo. O descarregar da frustração no primeiro que encontram.

Ao fazer uma pequena compra no quiosque do costume tenho que voltar ao carro, ali estacionado a dez metros, para pagar. Fila de gente (a peste das raspadinhas pior que a bubónica), o homem do quiosque ao ver-me voltar, passa à máquina ao lado para completar a transacção. Logo um sujeito começa a protestar que me estou a meter à frente. Olhado de relance, não aguenta com uma gata pelo rabo e no colarinho usa pouco pano, a modos que como o caballo ético y mustio do Buscão de Quevedo, demostraba abstinencia en su aspecto  Explico que tinha sido coisa deixada pendente, mas que se quiser volto amanhã. Sugiro ao homem do quiosque que guarde o dinheiro entretanto por mim entregue, que volto amanhã. «Era o que faltava, ele que espere que você estava primeiro» responde ele lá de dentro, enquanto prossegue com a soma e o acertar de contas. O sujeito não desarma, continua a reclamar, mais que torna, e mais que deixa… E quando me afasto continua. É raro o dia que não engula uma destas em seco, talvez porque fale baixo e com bons modos, sinal de fraqueza com certeza, talvez porque tenha azar…

Ainda assim, é preferível esta série de azares diários. Melhor o meu azar que o dele. Cultor de disciplina física férrea, o madeiro do drikketrau que devia pesar 130 ou 150 quilos, foi trazido às costas a subir do sítio de abate da árvore uma distância de cerca de trezentos metros, é melhor não ir por caminhos de acertar contas a estalo. Sabe-se como começa, não como acaba. Há mais de vinte anos, num bar em Fredericia na Dinamarca, no You never walk alone, pensei em acertar contas a murro com um sujeito também que andava a implicar e ofender há já uns meses. Como a conta já andava atrasada o carcanho levava peso. Depois, como ele não dava sinais de acordar, foram uns minutos a fazer contas de cabeça a quantos anos teria de prisão. Calhou a acordar… mas foi um calhar.

Sobre soliplass

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Uma resposta a Medos & receios

  1. Não creio que se tenha tratado de “um calhar”, sendo isto sobre situação tua. Lendo-te, percebe-se que tens uma imensa força interior e uma enorme calma exterior. Normal, por isso, que a exaltação surja, de quando em vez, com bestas quadradas, mas parece-me que és o tipo de pessoa com um carácter distinto, raro, aquele que sabe respirar e libertar-se do veneno alheio tentando entrar-te pollas veias adentro.

    Não será à toa que carregas madeiros e desempenhas tarefas de esforço: isto, tal como as caminhadas (no meu caso) contribuem para a limpeza da mente, que faz muito, imenso, pela calma – chamemos-lhe assim – do corpo de fora 🙂

    __________
    p.s. – Com uma vénia.

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