Degradação da linguagem

Escreve aquele benemérito sr. dr. Assis em crónica no Público:

Os jornais e as redes sociais têm vindo a anunciar a eclosão de uma movimentação popular inspirada no exemplo dos “gilets jaunes” franceses. Ontem foi mesmo publicado um manifesto supostamente elaborado por um grupo de promotores de tal iniciativa. Uma rápida leitura desse documento permite-nos sem dificuldade concluir que a tentativa de mimetização dos acontecimentos franceses se coloca no domínio da paródia. O texto em causa constitui uma exemplar demonstração de como uma mistura de populismo, ressentimento e demagogia pode ocasionar o surgimento de um discurso público abaixo das mais simples exigências de ordem ética e intelectual. Está ali quase tudo o que historicamente favoreceu a afirmação de posições antiliberais, antidemocráticas e propensas ao irracionalismo. A ignorância atrevida, a ofensa à inteligência e o elogio das pulsões primárias constituem o caldo de cultura onde germinam os extremismos políticos inimigos dos fundamentos dos regimes democrático-liberais.

Não chegámos até aqui por acaso. Estas delirantes tomadas de posição foram precedidas de um progressivo avanço de uma retórica política maniqueísta e sectária formulada através de uma linguagem empobrecida até aos limites da caricatura. Infelizmente essa retórica foi invadindo quase todos os planos da discussão pública ousando penetrar até em redutos institucionais onde nunca deveria ter irrompido. “

É claro que nada disto – a culpa da adopção «de uma linguagem empobrecida até aos limites da caricatura» – foi culpa da adopção por parte das elites políticas de uma linguagem enriquecida até aos limites da caricatura. Do uso repetido do eufemismo ou daquela coisa que Bentham no Handbook of Political Fallacies chama de Vague Generalities.

O que era convenientíssimo para preservar os fundamentos dos regimes democrático-liberais era que aos roubos de bancos se chamasse «imparidades», ao sonegar de fundos públicos «alavancagem» e o «foder os outros», a que o sr. dr. Assis e colegas se empenham com determinação e tautologia, fosse descrito nos termos do poeta frascário no chá da academia de Dalton Trevisan publicado em Arara Bêbada (2004). Conhecem a micro-história do Dalton No Chá da Academia?

No chá da Academia, em confidência ao amigo, o nosso poeta frascário e versado nos clássicos:

   – Perlustrando pelos caminhos da urbe, deparei com uma deidade que me pareceu virgínea. Empós breve requesta, instei-a a acompanhar-me a uma casa de  coabitação a tempo fugaz. Em lá chegando, desnudei-a e empolguei-a. Oh, pérfida Vênus: não é que, no assalto aos muros de Tróia, me coube investir o portal mais complacente?”

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Sobre soliplass

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