Evocações

Foi um texto corajoso. Uma insurgência contra a pena de morte a que tinham sido condenados os colaboradores do regime pró-nazi durante a ocupação da Noruega. Axel Sandemose publicou-o em 1947 (a 31 de Maio) numa revista que deu à estampa durante anos a expensas próprias e que o trouxe em dificuldades económicas o resto da vida: Brev fra Kjørkelvik (Carta[s] de Kjørkelvik). Naquela altura era um passo arriscado. Jens Bjørneboe viu-se sob ataque cerrado dez anos mais tarde, numa altura em que o tema já não era tão candente, com a publicação do romance Under en hårdere himmel onde também era criticada a posição de força dos vencedores, e a extrema dureza das punições dos vencidos.

O que torna curioso o texto de Sandemose (om avliving av hunden Nic og om dødsstraff – sobre o abate da cadela Nic e sobre a pena de morte) é que a crítica da pena de morte está inserta no relato do abate de uma cadela newfoundland, Nic. Nic tinha-se tornado agressiva, mordido uma pessoa, o escritor conta como a levou até à beira de um lago e a abateu a tiro da forma mais piedosa que pôde. É no seguimento dessa descrição que  em dois parágrafos se insurge contra a pena capital inflingida aos vencidos. E prossegue, descrevendo a agonia da outra cadela da casa, Nelly, que durante uma semana ou mais se torna apática, procurando por duas vezes deitar-se ao lado do cavalo como substituto da companheira, e recusa a comida. Sem que relacione explicitamente o sofrimento do animal que sente a falta, Sandemose como que junta um outro argumento contra a pena de morte. Alguém sentirá a falta do executado.

IMG_20181127_094945É um texto belíssimo e comovente. Longe do tom neutro com que se descreve a sorte daquele simplório do conto de Calvino Andato al Comando, que simboliza a sorte dos cerca de vinte mil mortos (nem sempre por morte rápida) no norte de Itália, segundo as contas de Gianni Oliva no La Resa dei Conti. Voltei a ele, coligido que foi numa edição da Shønbergske Forlag (Copenhaga, 1974), esta da capa branca da foto de um post anterior, à direita, por evocação. De um outro texto belíssimo: A Gaffe sem Alma.

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2 respostas a Evocações

  1. soliplass diz:

    Ora viva; e ora essa!! .

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