Em louvor da tauromaquia

 

Janela Manuelina

Já lá vão meia dúzia de anos. O período de férias, com temperatura agradável e sol primaveril, prometia ser agradável, sem chatices de monta; ocioso, com muito deslizar por Ceca e Meca, olivais de Santarém. Juntava-se a isso ter saído havia pouco um novo romance de Rentes de Carvalho; Mentiras e Diamantes. Foi a  primeira coisa logo pela manhã no primeiro dia de férias; ir comprá-lo. E começar a lê-lo numa esplanada de Santarém, debaixo do jacarandá, à vista daquela janela de onde diz o vulgo ter visto Pedro executar os assassinos de Inês.

À chegada à esplanada, livro na mão, olha-me ela, ali esparramada na companhia de marido e dois netinhos, uma amiga também já cinquentona e com cara de maus-fígados, e atira como quem quer distância mas ainda assim se acha na obrigação de cumprimentar: «’tão? tás bom?». Devem ter passado vinte anos desde a última vez que a vi. Imagino-lhe carreira num daqueles departamentos clandestinos (que ninguém sabe que existem) do Governo ou da Autarquia. Está larga, a cadeira de ferro pintada de verde, pouca. Sento-me, começo a ler o romance, o delicioso sabor da prosa de Rentes de Carvalho de mistura com o café e o cigarro e o som da mesa ao lado é ríspido. A musa de outrora, faz questão de tratar mal o marido. De lhe dar respostas curtas, ordens abruptas, em tom autoritário, que olhe pelos netos, que não lhes deixe fazer isto ou aquilo.

Lembrei-me de uma das minhas tardes inglórias na arena. Andaria pelos meus dezassete, fazíamos o percurso do liceu na cidade às aldeolas onde morávamos na camionete da carreira. Ela já tinha por essa altura umas ancas sumptuosas. Que, de vez em quando encostava. Inexperiente, tomei-me de entusiasmos. Não soube avaliar que não havia ali vontade de duelo (pelo menos comigo), apenas um experimentar da eficiência das armas. Certo foi, que numa tarde de Agosto, havendo picaria na aldeia dela, pensei impressioná-la com faena de pegar touros. Ou vaca, magreca e esgalgalhada, a cartilha mais que sabida, como era de praxe nas picarias.

O plano era em duas fases. Correr para a vaca quando estivesse distraída com outros, dar-lhe uma palmada na anca; e quando se voltasse para mim, surpresa, pegá-la sozinho. À musa de belas ancas, sentada nas varolas, de calça de ganga justa e de um polo Lacoste amarelo vestida, não escaparia o virtuosismo e coragem da manobra. Que correu mal. Nem palmada na anca da vaca assentei porque quando na velocidade da corrida e já sem possibilidade de travar lhe cheguei aos terrenos já ela tinha o corno esquerdo à minha espera. O que me valeu, ou tinha sido pior. Atingido no peito, equilíbrio perdido, a rolar atingi o limite da arena improvisada, e a rolar me escapei por baixo da primeira varola.

Suado, enrolado numa camada de pó e palha, qual croquete, humilhado pelo riso da assistência, lá peguei na moto e saí de fininho rumo a casa. Duas costelas partidas. Valeu-me o apoio e a solidariedade masculina e ribatejana do meu pai: «partiu-te só as costelas? Foi pena não te ter partido tamêm as pernas e os braços! Nã te tenho dito já muita vez que nã se há-de andar um home a pôr à frente de gado que bebe água aos almudes?»

A musa de outrora levanta-se da esplanada dando ordem ao marido de «vamos embora» e segue na companhia da amiga, guiando-o atrás, como bando de perus ou patos, a ele de cabeça baixa e aos netos obedientes, rua Capelo Ivens acima. As ancas ocupam agora metade da rua pedonal. Romance de Rentes de Carvalho pousado na mesa, olho-os – triste história de Pedros que se supliciam por próprias mãos e Inêses de pêlo na venta –, e louvo a tradição tauromática do Ribatejo; aquela fatídica tarde de picaria. Bendita vaca e abençoado corno.

 

Sobre soliplass

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