Os melhores livros do ano e as surpresas

Nesta altura do final do ano quase sempre se fazem balanços, avaliações, listas dos melhores livros, filmes, etc. & tal… Podemos sempre ir por aí. O método tem porém inconveniências. Andarmos a obedecer ao que críticos e editores decidem apregoar como bom, quantas vezes em prol da caixa registadora ou da propina, uma delas.

Por mim, aconselharia, a par disso, dar alguma espécie de oportunidade ao acaso. Comprar, em alfarrabista ou feira de rua, por exemplo, livros desconhecidos, daqueles que nunca ninguém ouviu falar. Como disse Jean d’Ormesson ao Libération, «tout le bonheur du monde est dans l’inattendu».

É provável que se encontre assim Un séjour en France sous Louis XV, Lettres du baron Pölnitz, o In America, do holandês e injustamente pouco conhecido entre nós, Geert Mak. Ainda, aquele que considero o melhor livro da literatura portuguesa do sec. XX, o Vida e Obra de Don Gibão de João Palma-Ferreira, ou, o Frendly Fire de Alaa Al Aswany.

No Friendly Fire, encontrará, depois do prefácio de Al Aswany onde o autor discorre entre outras coisas sobre as peripécias que levaram à proibição do livro durante uma década no Egito, a novela The Papers of Essam Abdel Aaty. Um retrato impiedoso (se bem que ficcionado) da hipocrisia e crueldade da sociedade egípcia contemporânea. É aí que encontrará este violento e chocante trecho sobre o abuso sofrido por uma criada de servir da família do protagonista:

“I was having sex with the maid Huda. Desire would gnaw at me, playing such havoc with my nerves that I woudl forget the smell of sweat emanating from her body, her thick, coarse hands, and her ugly, brown, cracked toenails. I’d call her and she’d know what I wanted from my tone of voice and come to my room, closing the door behind her and waiting in silence without looking at me. I’ pounce and put my harms arround her and everything would happen quikly and without a word. I’d be desperate to get it over with and when finished, she’d slip out of my grasp and gather up her clothes, leaving me feeling empty inside as the details of the encounter sank in, stripped of the clamour of pleasure, so that I felt the same disgust that I had felt during my college day when my hand touched the sticky, slime-coverded belly of a frog, and I woud try to rid myself of it with a hot shower.”

A este trecho segue-se um breve relato de como o protagonista, aquando da doença da filha bé-bé da criada, Kawsar, lhe dá dinheiro e insiste para que leve a filha ao médico. A mãe do protagonista, dependente, debilitada e dependente dos serviços e atenção da criada, repreende-o:

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“Just think, Isam! If our Lord were to rid Huda of tha girl of hers, she’d realy be free to look after me.”

I muttered something in disavowal, not believing my ears, but my mother turned her face as far away from me as she could, made a gesture with her hand, and said as though making light of it, “What’s so bad about it? Lots of babies die. It’d just be one more gone to join the rest.”

De uma penada e em poucos parágrafos Al Aswany dá-nos a entender que a violência maus-tratos sobre as mulheres naquela sociedade muçulmana em particular (coisa que podemos extrapolar a outras) não são apenas fruto das acções masculinas. São, isso sim, fruto das acções e valores (ou falta deles) de todos. Mulheres incluídas.

Sobre soliplass

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