Triste e cinzento (trist og gråt), seda rasgada (revnet silke)

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trist og gråta expressão norueguesa para tempo chuvoso, outonal, cinzento, pluvioso. Triste e “choroso”. E para mim, apesar das queixas dos colegas noruegueses, de férias estragadas metidos em casa, este tipo de tempo é uma alegria encontrá-lo. Calmo e tranquilo, meditativo, convidativo de livros e leituras.
Nos pequenos intervalos de trabalho, fumo um cigarro à porta que dá para a coberta, e para o fjord que se abre a sul, para o museu do velho veleiro de exploração polar, o Fram. A ele está associado também a definição do significado dos termos equivalentes a desânimo e a melancolia no Dicionário Académico Norueguês; a frase de Nansen no livro “Fram (sobre o) (através do) Mar Ártico“: hvor trist og gråt det er! Og lige fuldt er jeg ikke tungsindig” – Fridtjof Nansen: Fram over Polhavet I , 489 (1897).
“como é triste e cinzento! E apesar de tudo não estou desanimado”
A  este tempo de chuva associo também um som nas ruas de Oslo. Um som que recordo do romance de Ole Robert Sunde Penélope er Syk (Penélope está doente), um romance de um homem velho com a mulher doente terminal que fica confinada ao apartamento enquanto o marido sai por curto espaço de tempo para fazer as compras necessárias. Este Ulisses de odisseias curtas (desloca-se Teresesgate acima até Adamstuen) nas saídas à rua entretêm-se principalmente, numa espécie de ligação do mundo exterior à sua vida confinada, de pequenos episódios e evocações da memória. Uma delas, no início do romance, ao ouvir o som que faz a água projectada pelos pneus dos carros que passam em Teresesgate, é o lembrar-se de uma frase de um escritor americano (qual, não especifica) que compara o som da água projectada pelos pneus com o rasgar de seda. O som de seda rasgada: «lyden av det bortsprutete underdekkregnvannet var tydelig – et sted hadde en amerikansk forfatter sammenlignet det med revnet silke». Traduzindo, (o som da água projectada pelos pneus era nítido – noutro lado qualquer houve um escritor americano que o comparou a seda rasgada).
Ao caminhar pelas ruas de Oslo hoje de manhã, ouvi este som, recordando a frase. Ele transformar-se-á daqui a pouco. Já começou, aliás, em algumas ruas. Com a neve e o gelo, nos passeios, para prevenir as quedas e o escorregar, é espalhada gravilha. Com a escorrência, com o movimento dos passos, a gravilha invade parcialmente as ruas, o som dos pneus que sobre ela transitam modifica-se. Torna-se mais agressivo. É já não um rasgar de seda mas de um tecido mais áspero. Serrapilheira ou tela, talvez. Papel seco.

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