De costas ao caminho

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A 10 de Novembro de 1998 escreve o norueguês Kjell Arild Pollestad no seu diário que observa na linha ferroviária Sørlandsbanen o deputado socialista Stein Ørnhøi a passar por ele e restante plebe e a encerrar-se no salão do comboio, tão importante e exclusivo que os passageiros que a ele acedem têm chave própria. O inconveniente, segundo Pollestad, é que os assentos dão de costas para o caminho. Coisa que convêm, e assenta, a socialistas; presos a uma pesada cegueira e enviesamento ideológico, não conseguem descortinar o território em que viajam. Ou o progredir da História.

Esta imagem, se descoberta pelo Blasfémias ou pela comentadora residente Zazzie, faria a delícia da confraria.

Não é que Pollestad estivesse a ser muito original na sua crítica ao socialismo em geral ou ao nórdico em particular. Nos idos de sessenta já Jens Arup Seip no seu Fra embedsmannsstat til ettpartistat & etc… tinha dado forte patada na criatura socialística noruega e nos setenta  em The New Totalitarians (a partir de inglaterra) Huntford na sueca. Ou muito actual. Os políticos socialistas, tinham já virado a cadeira, rendidos à pragmática, enfrentando o andar da carruagem, fazendo seu o lema de Guizot (enrichissez-vous).

Nesses finais de noventa, pareciam ser antes os neo-liberais os que viajavam de costas. Na minha licenciatura de Ciência Política ali na Nova à Avenida de Berna, um professor de Economia Política que de tanto grasnar pela atenção dos alunos ficou o ófaxavor! (parece islandês); perorava incansavelmente que se devia taxar o trabalho e não o lucro. Porque os rendimentos do trabalho (se excedentes) seriam destinados ao consumo (estragá-lo, na voz do povo) e os das empresas, ao investimento. Não via, o pobre homem, que parte substancial do investimento seria a capturar as instituições de decisão política dos países ocidentais democráticos (e seus incumbentes) cujas facturas (nacionais) em bpn’s e bes’s e pt’s e edp’s estamos a pagar diáriamente, e a promover internacionalmente ditaduras e autoritarismos  nos cinco continentes, os mais importantes, o russo e o chinês cujo poder pagaremos no futuro sabe Deus com que custos, sugere-nos a História que muito provavelmente com o sacrifício último.

Trato o assunto em tom de ligeireza. E talvez não seja lícito aqui o tom condenatório ou acintoso. O tom de Pollestad não o é, antes de uma ironia benevolente. Todos procuramos de alguma forma prestígio e segurança (seja num salão de comboio seja numa cátedra na Avenida de Berna) e alguma forma de escapismo mesmo que a custo de enviesamento ideológico, de cegueira face ao percurso e ao território, viajando de costas para o caminho.

Volto às páginas deste homem polémico e brilhante em Gleden er Gratis; Pollestads Best (A Alegria é Grátis; O melhor de Pollestad) depois de duas semanas a visitar no lar a minha mãe que já não sabe quem eu sou; os olhos desfocados, sem palavra articulada. Como grão de bico com dois ovos cozidos para evitar a estupidez e hostilidade da conversa ao lado na mesa do restaurante, a hostilidade e estupidez do debate desportivo no ecrã televisivo omnipresente. Para evitar pensar no trabalho intenso e extenuante que me espera, nos erros que tardo em desculpar-me. Voltar a estas (e a outras) páginas,  menos que a busca de ciência e explicação, é uma outra forma (a minha) de viajar de costas e evitar o terreno.

 

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