Excepção histórica

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A generalização abaixo referida de Pollestad à rigidez dogmática dos socialistas e ao seu apego aos privilégios, não tem que ser entendida como um absoluto. O mundo, e o mundo político em particular, helás, não é um sistema de mecânica newtoniana, de equações rígidas e imutáveis, uma concatenação de silogismos lógicos, um Código de Hamurabi. Existe ainda e sempre alguma margem de liberdade, seja por vontade divina ou imperativo humano. Em algum ponto da vida somos tentados à transgressão ou apostasia. Vc. caro leitor ou leitora, é de opinião firme e convicta que os rebanhos são de crucial importantância para a gestão de combustíveis e prevenção de incêndios nas nossas serras, charnecas, paúis e bosques de caducifólias. É uma convicção justa, não um Édito de Tessalónica. Naturalmente, sente incómodo se a seu lado se vem sentar um pastor num concerto da Gulbenkian. É natural. É humano. Excepção que não descomfirma a regra.

Ao dogmatismo ideológico dos socialistas, e ao seu apego aos privilégios, existe uma excepção notória. O episódio vem relatado na obra de referência quanto à vida e feitos de Heyerdahl, de Ragnar Kvam Jr. (Vol. II, Mannen og Verden, Oslo, Gyldendal, 2008), p. 208, a tal da foto que abre o post.

Aconteceu, no complexo museológico de Bygdøy em Oslo (se descer dois posts verá uma porta que se abre sobre uma coberta e um deque de um navio onde fumo meu cigarro, em frente o tal complexo) no Verão de 1964. Nikita Serguêievitch Khrushchov (secretário do partido comunista da União Soviética) e o seu ministro dos negócios estrangeiros Andrei Andreievich Gromiko visitavam oficialmente a Noruega. Khrushchov manifestou também desejo de visitar o museu da balsa rudimentar (ou jangada) KonTiki, sendo Thor Heyerdahl, o navegador que com ela atravessou o Pacífico, o guia da visita. E aí, aconteceu o insólito, a excepção em manifestação pública ao dogmatismo e à venalidade por parte dos expoentes máximos do socialismo à época. Em parte, a indiscrição de uma criança que ouviu o desabafo (o filho de Heyerdahl, Thor jr. que acompanhava a mulher e a filha de Khrushchov ) permite-nos hoje saber que Gromiko, ao ver a frágil estrutura da balsa exclamou: «mais depressa me convertia ao capitalismo que embarcava numa coisa destas!»

Já Khrushchov, que ouvia atentamente as explicações de Heyerdahl (pode ver o vídeo aqui), –  desculpando-se das fracas artes de marinheiro -que em pouco ou nada o habilitavam à empresa – ofereceu-se de imediato para ser o cozinheiro na próxima expedição. Abdicando, intrépido e voluntarioso, de todo os confortos e seguranças da sua posição cimeira no mundo socialista.

Nada disto tirou (aparentemente) o mundo dos eixos ou impediu Pollestad da generalização sobre os socialistas que continua válida. Não nos impedirá a nós, estou em crer, de advogar p’los gados a gestão de combustíveis a bem da natureza e ir enxotando um pastor por outro dos concertos da Gulbenkian. Uma coisa é uma generalização meritória, e bem teleológica e normativa por sinal, a outra um impulso que nada invalida, um saudável impulso de livre-arbítio, em que até os mais rígidos dos indivíduos do seu tempo incorreram.

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