Fascismos & democracias, convicções & moderações

My, oh my, oh my, oh my… Rolão Preto e os seguidores.

Rolão Preto e Nacionais-Sindicalistas

 

Nos últimos tempos este blog teve um número anormal de leituras; o que me levou a reler algumas coisas escritas aí para trás. Se alguns posts não precisam de contextualização (como o Primeira neve), outros como o Hoplitas da soberania, já necessitam dela por não serem tão óbvios. No caso do hoplitas, relata-se um episódio do inverno de 2012. Alguns dos meus colegas de profissão, num vôo da TAP de Lisboa-Oslo, dando com um simplório que foi à Noruega para encontrar trabalho, encorajaram-no ainda dentro do avião; prometendo-lhe ajuda e dando-lhe esperança e conselho, fazendo-o antever um mundo de facilidades. Assim que saíram do avião abandonaram-no à sua sorte, nunca mais se deram por conhecidos. Como cá fora do aeroporto num dia de frio extremo o pobre homem só me conheceu a mim acabei por ser eu ainda a dar-lhe dinheiro (o que tinha comigo e era pouco, confesso com alguma má-consciência) para me ver ainda gozado por essa dádiva no dia seguinte pelos que o abandonaram. O post intitulou-se hoplitas da soberania porque era um tempo de fervor nacionalista contra a chanceler alemã Angela Merkel e o seu ministro das finanças Wolfgang Schäuble, imputados responsáveis pelas dificuldades económicas portuguesas e pela obrigação de pagar a dívida acumulada e descomunal. Andava tudo unido e solidário contra essa ingerência na soberania nacional (os blogs dessa altura estão cheios de proclamações indignadas), o espírito de unidade lusitana ao rubro. Nada fazia prever (a não ser o conhecimento de História) que se abandonaria um compatriota ao frio no exterior de um aeroporto longínquo…

Tudo isto, que já vai longo, a propósito da indignação pelo tal fascista eleito para o parlamento,  fascista e racista, e nazista e populista, e mais uma cáminete de “istas”, um perigo segundo as redes sociais e a comunicação dita de tal.

Que as televisões e jornais são fábricas de acefalia e vulgaridade é ponto assente. Que os seus pivots, gestores, jornalistas subalternos ou meninas da secretaria, lembrem aquela raça que nos deu Nathaniel West no Balso Snell (the Phoenix Excrementi eat themselves, digest themselves, and give birth to themselves by evacuating their bowels) na criação de notícias e opiniões que os sustentem não admira.  Que o fascista e ornitocéfalo Ventura seja figura triste (por moto próprio) e tenha (de  forma igualmente triste) audiência confirma-se. O que dificilmente se confirmará é que constitua, ele ou os seus capangas, algum perigo no futuro para a vida política colectiva portuguesa. O tipo de gente formada no gamanço de auto-rádios no eixo estratégico Forte da Casa/Odivelas,  – não na leitura de Maurras ou D’Annunzio -, quando muito constituirá perigo para um ou outro sujeito de pele escura que encontrem a horas mortas – se suspeitarem que leva dinheiro -, para uma ou outra roullote de bifanas que dê crédito, ou, para si mesmos se a colher do cavalo lhes destrava pistola ferrugenta ou pont’i’mola no bolso.

É que, movimento político, para ter poder, necessita de uma coisa essencial, aderentes. Convictos. E entre nós, como bem nos viu Eça – Godofredos do «que coisa prudente é a prudência» – dada a falta desse luxo que é a convicção,  é imperioso ter  ainda um recurso mais importante: algo para distribuir. Regra geral, isto afecta tanto fascistas quanto democratas.

Nem a democracia ou os democratas que logo de rópia aos gorgomilhos de Venturas e populismos deram peleja estrondosa ( como Heitor e Egas,  “que entravam pelas feiras num arranque de rópia e pimponice, que ia tudo raso”. [Camilo, A Brasileira…])  são para levar muito a sério. Democracia e democratas que têem como arqui-trave da exegese Marques Mendes, em Jorge Coelho la pierre d’achoppement do bom-viver ético e num emérito professor de Direito Constitucional – que corre a abraçar fraternal o primeiro orangotango de caserna alcandorado em régulo ou soba em paragens tropicais – o seu primeiro magistrado, democracia e democratas que vivem bem com salário mínimo de seiscentos euros e picos do vizinho, e que até hoje conviveram bem com (e permitiram) esses programas da manhã onde à parte mais desprotegida e frágil (material e intelectualmente) da população se vendem panelas de má qualidade, banha da cobra para artoses ou acne e chamadas de valor acrescentado, quanto mais batem com a mão no peito mais se nota que toca a oco como árvore cardida onde pica-pau faz o ninho.

É que há em Portugal um enorme poder moderador (à imagem da América do Sul onde o exército assume esse papel – onde é que já eu li isto? aqui?) de fundamentalismos e extremismos. Sejam eles militares-patriotistas, nacionalistas, passionais ou o rigor da letra da Lei.

No mês passado, à porta do café, uma senhora perguntava-nos (a mim e a outro) a idade, se éramos da idade do filho. Confirmá-mos, no mesmo ano à inspecção militar. Queixou-se a senhora que tinha pago um rôr de dinheiro para nada, a que o meu parceiro respondeu «vocês ainda o tinham eu tive que o ir pedir emprestado». Referiam-se ambos ao montante (que afinal não resultou) pago a um oficial do exército para livrar um indivíduo da incorporação militar, prática ainda corrente no início de oitenta.

Tinha decorrido meia década desde a Revolução mas Portugal não mudara assim tanto. Lembro-me da intransigência da Brigada de Trânsito que nos limites de peso da carga dos camiões tinha um filão. Longas filas de camiões parados de noite antes das balanças fixas junto da ponte de Coimbra, da ponte da Figueira, na Mealhada. Ninguém arriscava a passagem até que um (nem sempre, mas acontecia com frequência) com um boné ou chapéu, percorria a fila de camiões estacionados e pedia «é pá, dás alguma coisita pra ver se aqueles cabrões se vão embora?». Com o produto da colecta ia negociar o abandono do posto pelos agentes da autoridade, e, tendo sucesso, lá vinha a correr e a gesticular: «é pá vamos embora, a malta pode andar qu’eles vão-se embora». Por vezes o carro da brigada passava em sentido contrário para confirmar o veredicto do abandono do posto ou passar revista ao rebanho acabado de tosquiar. Dura lex sed lex, mas nada que um boné cheio de papel amarrotado não resolvesse.

Por esses anos, um empresário, levando a esposa, levou a secretária  (que fornecia extenso leques de serviços) também à Exponor. Explosão no quarto do hotel. Gritos indignados da esposa, chapada e pontapé de resposta, tratamentos de puta para baixo e o atirar de cinquenta contos… «tão aí cinquenta contos vai comprar trapos não me fodas a cabeça, farta-se um home de trabalhar…» no outro dia a esposa com o seu adónis barrigudo cabeça no ombro dele a passear na Exponor.

Época estranha, e reveladora, onde também os extremismos de esquerda se iam diluíndo. Sir João Carlos Espada, Durão Barroso, Santos Silva, Jorge Coelho, José Manuel Fernandes, depressa abandonaram a militância dos grupúsculos mata-e-esfola de esquerda em cata de melhor folha de vencimentos. À semelhança das forças armadas nas politeias América Latina, temos em Portugal (que é menos um país que uma romaria de aflitos) um forte poder moderador de extremismos políticos, passionais, legais, patrióticos & etc: a aritmética!

Constituem o sr. Ventura e apoiantes e o seu extremismo uma ameaça à ordem democrática? Olhando a História, é duvidoso. O que ficou do último movimento (puro e duro) fascista foi a frase de desgosto e desapontamento do seu líder, Rolão Preto, àcerca da cautelosa moderação dos militantes:

“eu pensava que tocava a marchar para a revolução, mas afinal muito dos que me seguiam apenas queriam que se tocasse para o rancho”

Calma, para melhor ou pior, isto não mudou assim tanto.

 

Sobre soliplass

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