Papas irrisórios

Esta coisa de um tipo com ar de trabalhador braçal como eu ser normalmente olhado de soslaio em eventos culturais (tema de um post abaixo) acaba por ter alguns episódios potencialmente engraçados.

Quando há cerca de um ano atrás um encenador que estava para trazer ao público a peça de Jon Fosse (Sonen – O filho) me contactou por e-mail a pedir uma pequena ajuda na tradução de trechos da peça, além do facto de ela ter sido escrita na língua ou variação da língua norueguesa Nynorsk com que estou menos familiarizado, os trechos apresentavam um problema interessante já que um dos personagens tinha o nome (ou alcunha) de Papa (Paven). Se bem que já antes do cisma religioso da Reforma nas línguas nórdicas existissem termos ou palavras compostas com o termo Papa ( o caso de  þrætupáfar (anti-papa ou contra-papa) og villupáfar (falso papa), provávelmente reflexo de pouca simpatia pelo catolicismo, é a partir da Reforma que os termos compostos com a palavra papa passam a ter um sentido pejorativo, sendo usados frequentemente como forma de escárnio ou crítica a quem tenta fazer-se passar por mais importante do que é. Desses papas “importantes” e auto-proclamados são exemplo os termos pejorativos e derrisórios bygdepave (papa de aldeia), maktpave (papa poderoso), skitpave (papa de esterco), småpave (pequeno papa). A lista é extensa e pode incluir desde resmungão a vigarista: eglepave, ertepave, ranglepave; vinglepave, fomlepave, rolsepave, rotepave, somlepave, tatlepave, tutlepave, furtepave, kranglepave, surpave, sutrepave,juksepave, snytepave; skrytepave, skrønepave, lortpave, siklepave, snottapave, snørrpave, etc., …

Acabei por traduzir a palavra, ou nome, ou alcunha do personagem ao encenador simplesmente por «Papa» para não estar com mais complicações ou sufixos. Havia ainda outra hipótese que era o outro significado comum de paven; «paven» designa também o saco estomacal dos lagostins e outros crustáceos, algo de não comestível e intragável, repulsivo. Ler a peça toda foi a forma de tentar confirmar se alguma descrição física do personagem não estaria relacionada com esse saco estomacal dos crustáceos. O facto foi que um pequeno problema acabou por consumir horas, num altura em que andava cansado destes trabalhos. Acabei por ter alguma curiosidade até de ver a peça encenada. Mas logo pus a ideia de parte para que não ter a experiência de olhares de soslaio e comunicações não verbalizadas de que o meu lugar não é ali. Não deixa de ser engraçado imaginá-los a pensar o qu’é qu’este grunho vem prá’qui fazer

É claro que o exercício acabou até por ser compensatório. Quando se pesquisam diccionários etimológicos em língua norueguesa acabamos por ser remetidos quase sempre para diccionários dinamarqueses. Foi aí que deparei com mais um termo que envolve «Papa», já mais moderno e aplicado ao mundo da burocracia, «skrankepaven» (papa de balcão) ou (papa de balcão de repartição pública). Designa o burocrata que se arroga o direito (ou dever) de complicar a vida aos outros, aqueles que em princípio deveria servir. Papa de balcão seria até alcunha que poderíamos utilizar por cá, em mundo católico, porque por repartições e serviços são bastos.

Talvez até, a Augusto Santos Silva não assentasse mal (já que absolve Bolívias e excomunga Venezuelas) Papa de Chancelaria. Pensando melhor, talvez pêga de chancelaria, pela voz grasnífera e pelo seu ar saltitante de corvídeo. Dado o polissémico de «pêga» e já que a tradição de meretrício de Portugal na cena internacional é tautológica e reconhecida, o título poderia até ser hereditário e passar a futuros Ministros dos Negócios Estrangeiros.

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