Os erros de escrita e a polémica literária do ano na Noruega

IMG_20200104_145811

Para um leitor português, habituados que estamos a uma correcção ortográfica e gramatical extrema (que raia a obsessão), a coisa é estranha, para não dizer surreal. Originou a polémica literária do ano passado na Noruega; novamente me lembro disto ao ler o post de hoje no Chove, agora sobre os erros de Miguel Sousa Tavares.

Habituei-me, com a experiência de anos a ler literatura norueguesa, a uma certa liberdade que os autores usam na forma de escrever. Desde regionalismos a reprodução de dialectos ou sotaques nos diálogos, a mesma palavra pode aparecer grafada de forma diferente. Mas mesmo assim, parece que há limites…  A polémica do ano estalou, imaginem, porque, num romance de 112 páginas de um escritor conceituado, dois revisores, contratados pelo jornal Klassekampen, encontraram um 442, e o outro 558 erros ortográficos ou gramaticais.

Dag Solestad, tinha publicado na Primavera de 2019 o romance em causa (da foto acima), Tredje, og siste, roman om Bjørn Hansen. O livro teve boas críticas (ainda não o li), famoso e consagrado Solestad é considerado o novo Ibsen, inatacável, quase um parque nacional, como lhe atirou, apontando o exagero, um outro escritor norueguês. Não aceitou a crítica, a bem da liberdade criadora e de dar à língua norueguesa o uso artístico que bem entende, e, num extenso artigo de duas páginas também publicado no Klassekampen – que consta hoje na pagina da associação de escritores noruegueses (talvez para criar jurisprudência) – respondeu com um coloquial “kyss meg i ræva!” (beijem-me o cu!).

Defendendo-se, exigia um pedido de desculpas por parte do jornal, ao mesmo tempo que a responsável pela editora (Oktober), Ingeri Engelstad, que o jornal co-responsabilizava pelo tamanho do disparate/desleixo, por sua vez sacudia a água do capote argumentando que na escrita de Solstad não se mexe para não estragar a musicalidade e o ritmo, a “verdade do momento em que se escreve” e a “temperatura do acto de escrita”, e essas coisas…

Facto foi que o jornal se retractou e apresentou desculpas. O ano não acabaria porém para Dag Solstad sem la cerise sur le gâteau. A 24 de Dezembro o mesmo Klassekampen atribuiu ao escritor (ex aequo com Grethe Fatima Syéd) o prestigiado prémio cultural Neshorn (Rinoceronte). Cá temos os dois agraciados.

E esta hein? … como diria o outro! Cerca de quinhentos erros num romance de 112 páginas, um pedido de desculpas e um prémio…

Caro plúvio, seja magnânino, perdoe lá ao homem nem que seja por esta vez.

 

 

 

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , , , . ligação permanente.