Ficção, feudalismo, computadores

A denúncia pública de ontem na entrevista à RTP 3 de Ana Gomes sobre a conivência das elites políticas e institucionais portuguesas com as cleptocracias (não só angolanas) e a impunidade de que gozam, o clima de corrupção generalizada, deveria deixar o país em choque.  A imprensa de hoje, no geral, prefere tratar o assunto como uma partida para a corrida presidencial, que é a melhor forma de transformar a denúncia (justíssima) em ambição. Tornando-a, por essa via, igual aos outros. Outros que (dia a dia, cada cavadela cada minhoca) sempre engravatados e compostinhos continuam a ensinar pelo exemplo o mesmo que as cartas de Lord Chesterfield segundo Samuel Johnson: “they teach the morals of a whore, and the manners of a dancing master.”

Depois de ver aquilo fui ao blog de Isabela Figueiredo procurar Feudalismo + Computadores, por me lembrar deste seu velho (de 2012) texto que infelizmente não passa de moda:

“A Constituição da República Portuguesa existe em livro, mas é entendida pelos poderes como se fosse uma obra de ficção. É imaginação literária, não para se respeitar. Claro que, perante uma atitude deste calibre, não há razão para a existência de um Tribunal Constitucional. Se existir, as suas decisões são igualmente ficcionais, portanto sem peso real. O que interessa que considerem que isto e aquilo não cumpre a constituição? Não cumpre, mas pode fazer-se. A prova é que se faz.
Aliás, o cumprimento da Lei depende de quem tem de a cumprir. Se for eu ou o vizinho Manel, sim senhores, aplica-se, mas se for um senhor do aparelho partidário ou das estruturas de poder, sejam quais forem, já não. É uma espécie de feudalismo, mas com computadores

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