Susan Sontag sobre Joseph Brodsky, merda na Rússia, cosmopolitanismo e a quem agradar no que se escreve

[…]

“He was elegant enough always to claim that he had not really suffered during that year and a half of internal exile; that he rather like farmwork, specially shoveling manure, wich he regarded a one of the more honest and rewarding jobs he’d had so far, everyone in Russia being mired in shit, and got quite a few poems written there.”

[…]

” – landing amongs us like a missile hurled from the other empire, a benign missile whose payload was not only his genius but his native literature’s exalted, …”

[…]

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“Such adaptability, such gallantry, may go by the name of cosmopolitanism. But true cosmopolitanism is less a matter of one’s relation to place than to time, specifically to the past (which is simply so bigger than the present). This has nothing in common with that sentimental relation to the past called nostalgia. It is a relation, unsparing to oneself, which acknowledges the past as the source of standards, higher standards than the present affords. One should write to please not one’s contemporaries but one’s predecessors, Brodsky often declared.”

(Susan Sontag, Joseph Brodsky, in Where the Stress Falls, Picador, NY, 2002, pp 330-31)

 

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De gatos e geringonças; e um (possível) divertimento dominical

O termo «geringonça» ganhou de súbito (com a solução política actual) lugar cativo nas conversas ou textos dos jornais, a fazer jus à ignorância e paroquialismo luso já que os governos de coligação fruto de sistemas eleitorais de representação proporcional são a norma nos países da Europa civilizada. Mas «geringonça» ou «jeringonça» pode também significar linguagem estranha, calão, dialecto. Nesse sentido vamos encontrá-la na versão espanhola (jerigonza) na peça de Lope de Vega La Dama Boba num trecho divertido que descreve um (enternecedor) nascimento de gatos:

Clara
   Ya parió
nuestra gata la romana.
Finea
   ¿Cierto, cierto?
Clara
   Esta mañana.
Finea
   ¿Parió en el tejado?
Clara
   No.
Finea
    Pues, ¿dónde?
Clara
   En el aposento;
que cierto se echó de ver
su entendimiento.
Finea
  Es mujer
notable.
Clara
   Escucha un momento.
Salía, por donde suele,
el Sol, muy galán y rico,
con la librea del rey,
colorado y amarillo;
andaban los carretones
quitándole el romadizo
que da la noche a Madrid,
aunque no sé quién me dijo
que era la calle Mayor
el soldado más antiguo,
pues nunca el mayor de Flandes
presentó tantos servicios;
pregonaban aguardiente,
agua biznieta del vino,
los hombres Carnestolendas,
todos naranjas y gritos.
Dormían las rentas grandes,
despertaban los oficios,
tocaban los boticarios
sus almireces a pino,
cuando la gata de casa
comenzó, con mil suspiros,
a decir: «¡Ay, ay, ay, ay!
¡Que quiero parir, marido!»
Levantóse Hociquimocho,
y fue corriendo a decirlo
a sus parientes y deudos;
que deben de ser moriscos,
porque el lenguaje que hablaban,
en tiple de monacillos,
si no es jerigonza entre ellos,
no es español, ni latino.
Vino una gata vïuda,
con blanco y negro vestido
-sospecho que era su agüela-,
gorda y compuesta de hocico;
y, si lo que arrastra, honra,
como dicen los antiguos,
tan honrada es por la cola
como otros por sus oficios.
Trújole cierta manteca,
desayunóse y previno
en qué recebir el parto.
Hubo temerarios gritos:
no es burla; parió seis gatos
tan remendados y lindos,
que pudieran, a ser pías,
llevar el coche más rico.
Regocijados bajaron
de los tejados vecinos,
caballetes y terrados,
todos los deudos y amigos:
Lamicola, Arañizaldo,
Marfuz, Marramao, Micilo,
Tumba[h]ollín, Mico, Miturrio,
Rabicorto, Zapaquildo;
unos vestidos de pardo,
otros de blanco vestidos,
y otros con forros de martas,
en cueras y capotillos.
De negro vino a la fiesta
el gallardo Golosino,
luto que mostraba entonces
de su padre el gaticidio.
Cuál la morcilla presenta,
cuál el pez, cuál el cabrito,
cuál el gorrïón astuto,
cuál el simple palomino.
Trazando quedan agora,
para mejor regocijo
en el gatesco senado
correr gansos cinco a cinco.
Ven presto, que si los oyes,
dirás que parecen niños,
y darás a la parida
el parabién de los hijos.
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Adenda:
Se o género lhe agrada e se o ócio dominical lho permite, pode de novo encontrar o gato Hociquimocho (na Silva V, assistindo a um casamento) numa outra obra célebre de Lope de Vega; a La Gatomaquia: um divertido e genial poema épico em que os protagonistas são gatos. Vai ver que não perde o tempo. Tem amor e guerra, traição e ciume, paixão animalesca e coragem, tragédia e bem-aventurança. Uma bíblia em miniatura, portanto.
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Os melhores livros do ano e as surpresas

Nesta altura do final do ano quase sempre se fazem balanços, avaliações, listas dos melhores livros, filmes, etc. & tal… Podemos sempre ir por aí. O método tem porém inconveniências. Andarmos a obedecer ao que críticos e editores decidem apregoar como bom, quantas vezes em prol da caixa registadora ou da propina, uma delas.

Por mim, aconselharia, a par disso, dar alguma espécie de oportunidade ao acaso. Comprar, em alfarrabista ou feira de rua, por exemplo, livros desconhecidos, daqueles que nunca ninguém ouviu falar. Como disse Jean d’Ormesson ao Libération, «tout le bonheur du monde est dans l’inattendu».

É provável que se encontre assim Un séjour en France sous Louis XV, Lettres du baron Pölnitz, o In America, do holandês e injustamente pouco conhecido entre nós, Geert Mak. Ainda, aquele que considero o melhor livro da literatura portuguesa do sec. XX, o Vida e Obra de Don Gibão de João Palma-Ferreira, ou, o Frendly Fire de Alaa Al Aswany.

No Friendly Fire, encontrará, depois do prefácio de Al Aswany onde o autor discorre entre outras coisas sobre as peripécias que levaram à proibição do livro durante uma década no Egito, a novela The Papers of Essam Abdel Aaty. Um retrato impiedoso (se bem que ficcionado) da hipocrisia e crueldade da sociedade egípcia contemporânea. É aí que encontrará este violento e chocante trecho sobre o abuso sofrido por uma criada de servir da família do protagonista:

“I was having sex with the maid Huda. Desire would gnaw at me, playing such havoc with my nerves that I woudl forget the smell of sweat emanating from her body, her thick, coarse hands, and her ugly, brown, cracked toenails. I’d call her and she’d know what I wanted from my tone of voice and come to my room, closing the door behind her and waiting in silence without looking at me. I’ pounce and put my harms arround her and everything would happen quikly and without a word. I’d be desperate to get it over with and when finished, she’d slip out of my grasp and gather up her clothes, leaving me feeling empty inside as the details of the encounter sank in, stripped of the clamour of pleasure, so that I felt the same disgust that I had felt during my college day when my hand touched the sticky, slime-coverded belly of a frog, and I woud try to rid myself of it with a hot shower.”

A este trecho segue-se um breve relato de como o protagonista, aquando da doença da filha bé-bé da criada, Kawsar, lhe dá dinheiro e insiste para que leve a filha ao médico. A mãe do protagonista, dependente, debilitada e dependente dos serviços e atenção da criada, repreende-o:

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“Just think, Isam! If our Lord were to rid Huda of tha girl of hers, she’d realy be free to look after me.”

I muttered something in disavowal, not believing my ears, but my mother turned her face as far away from me as she could, made a gesture with her hand, and said as though making light of it, “What’s so bad about it? Lots of babies die. It’d just be one more gone to join the rest.”

De uma penada e em poucos parágrafos Al Aswany dá-nos a entender que a violência maus-tratos sobre as mulheres naquela sociedade muçulmana em particular (coisa que podemos extrapolar a outras) não são apenas fruto das acções masculinas. São, isso sim, fruto das acções e valores (ou falta deles) de todos. Mulheres incluídas.

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Máquina de lavar louça ecológica de duas velocidades

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Se a estimada leitora gosta de cozinhar no campo para toda a família, nada que saber: umas brasas, e uma frigideira alta (ou funda),

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Hoje servi comida de camionista sueco, a famosa pytt i panne ou pyttipana.,

Nada que saber novamente, simplicíssimo, delicioso, nutritivo.

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Depois, para não ter grandes trabalhos e saborear o resto da garrafa de tinto, é conveniente ter a seu lado uma máquina de lavar ecológica. Sem poluição de qualquer ordem, sem consumo de energia nem necessidade de tratamento de águas. Trabalha a duas velocidades: a normal, a de hoje (célere q.b.); e a super rápida que tem que ser programada no dia anterior – carregando na abstinência, não lhe dando a ração costumeira. Simples.

Olhe que maravilha de lavagem perfeita, que brilho:

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Pensar em pequena escala

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Maravilhosa tarde na poda das oliveiras ontem: sol, o cão por perto, eu e o meu melhor amigo (daqueles que é uma sorte tê-los), o filho dele, jovem adulto, por companhia. Ensina-se, e mostra-se, ao jovial rapaz que ramos tirar,  a escolha dos ramos a preservar para “construir” a árvore futura.

Continuamos hoje, se bem que o tempo não esteja tão bonito. Carne assada na fogueira, pão, vinho, riso, as tropelias do cão, anedotas velhas…

Tudo isto, o prazer das pequenas coisas, cheiro de terra e de árvore, motosserras, serrotes, podões, arranhar de pele e sujidade de óleo e serradura, pode, e deve, levar em conta o aforismo de Theo. O aforismo de Theo, que aparece em Saturday de Ian Mcwean e que tomo a liberdade de citar, como todos sabem (povo que nada desconhecemos se bem que não se perceba exactamente para quê) reza o seguinte:

“On a recent Sunday evening Theo came up with an aphorism:  the bigger you think, the crappier it looks.  Asked to explain he said, ‘When we go on about the big things, the political situation, global warming, world poverty, it all looks really terrible, with nothing getting better, nothing to look forward to.  But when I think small, closer in – you know, a girl I’ve just met, or this song we’re going to do with Chas, or snowboarding next month, then it looks great.  So this is going to be by my motto – think small.’”

(para os que gostam de ir à fonte, e se preferirem ler da página da primeira edição americana, da Doubleday, foto acima)

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Filosofia de cegonha

Distraído pela conversa, sentado à mesa do café barulhento, via perorar – sem ouvir grande coisa – há um par de anos e num noticiário qualquer, um especialista de barba bem aparada e cabelo meticuloso. Fato de bom corte, gravata e camisa finíssimas, botões de punho reluzentes. Uma presença (como agora se diz) e um garbo admiráveis. Discorria sobre um político bizantino, ou homem providencial, em vias de se tornar ditador, um homem que subiu na vida desde uma infância na mais extremas das pobrezas até o extremo da riqueza e do poder. Pouco menos que absoluto. E sobre as implicações que um regime de súbito autoritário, num país poderoso, pode trazer aos equilíbrios frágeis entre os países do Médio Oriente.

Lembro-me do especialista ainda estudante universitário, rapazinho pobre, parco de indumentária e de opiniões. Consciente da sua baixa extracção social, não arriscava uma opinião, fosse a respeito de coisas profanas ou sagradas. Toda a cautela era pouca, o luxo de inimigos ou má-vontade, ainda que fruto de uma discussão inócua, cuidadosamente afastado.

Paul Bowles, ajudou, nos anos sessenta, a escrever um livro singular. Um livro que é uma história inventada e contada por um homem analfabeto que Bowles transcreveu a partir de gravação oral; a história atribulada de um pobre diabo que sofre as passas do Algarve no fundo da escala social marroquina. Intitulado A Life Full of Holes, mereceu ao The New York Times, em 1964 esta resenção crítica. Ou encómio.

Ao ouvir (mal ouvindo) o especialista, a referência ao semi-ditador, lembrei a frase que fecha o A Life Full of Holes. Em sociedades levantinas é filosofia de vida por palácios, universidades, aldeolas, bairros pobres de periferia:

“The stork has to wait a long time for the locusts to come. Then he eats.”

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Em louvor da tauromaquia

 

Janela Manuelina

Já lá vão meia dúzia de anos. O período de férias, com temperatura agradável e sol primaveril, prometia ser agradável, sem chatices de monta; ocioso, com muito deslizar por Ceca e Meca, olivais de Santarém. Juntava-se a isso ter saído havia pouco um novo romance de Rentes de Carvalho; Mentiras e Diamantes. Foi a  primeira coisa logo pela manhã no primeiro dia de férias; ir comprá-lo. E começar a lê-lo numa esplanada de Santarém, debaixo do jacarandá, à vista daquela janela de onde diz o vulgo ter visto Pedro executar os assassinos de Inês.

À chegada à esplanada, livro na mão, olha-me ela, ali esparramada na companhia de marido e dois netinhos, uma amiga também já cinquentona e com cara de maus-fígados, e atira como quem quer distância mas ainda assim se acha na obrigação de cumprimentar: «’tão? tás bom?». Devem ter passado vinte anos desde a última vez que a vi. Imagino-lhe carreira num daqueles departamentos clandestinos (que ninguém sabe que existem) do Governo ou da Autarquia. Está larga, a cadeira de ferro pintada de verde, pouca. Sento-me, começo a ler o romance, o delicioso sabor da prosa de Rentes de Carvalho de mistura com o café e o cigarro e o som da mesa ao lado é ríspido. A musa de outrora, faz questão de tratar mal o marido. De lhe dar respostas curtas, ordens abruptas, em tom autoritário, que olhe pelos netos, que não lhes deixe fazer isto ou aquilo.

Lembrei-me de uma das minhas tardes inglórias na arena. Andaria pelos meus dezassete, fazíamos o percurso do liceu na cidade às aldeolas onde morávamos na camionete da carreira. Ela já tinha por essa altura umas ancas sumptuosas. Que, de vez em quando encostava. Inexperiente, tomei-me de entusiasmos. Não soube avaliar que não havia ali vontade de duelo (pelo menos comigo), apenas um experimentar da eficiência das armas. Certo foi, que numa tarde de Agosto, havendo picaria na aldeia dela, pensei impressioná-la com faena de pegar touros. Ou vaca, magreca e esgalgalhada, a cartilha mais que sabida, como era de praxe nas picarias.

O plano era em duas fases. Correr para a vaca quando estivesse distraída com outros, dar-lhe uma palmada na anca; e quando se voltasse para mim, surpresa, pegá-la sozinho. À musa de belas ancas, sentada nas varolas, de calça de ganga justa e de um polo Lacoste amarelo vestida, não escaparia o virtuosismo e coragem da manobra. Que correu mal. Nem palmada na anca da vaca assentei porque quando na velocidade da corrida e já sem possibilidade de travar lhe cheguei aos terrenos já ela tinha o corno esquerdo à minha espera. O que me valeu, ou tinha sido pior. Atingido no peito, equilíbrio perdido, a rolar atingi o limite da arena improvisada, e a rolar me escapei por baixo da primeira varola.

Suado, enrolado numa camada de pó e palha, qual croquete, humilhado pelo riso da assistência, lá peguei na moto e saí de fininho rumo a casa. Duas costelas partidas. Valeu-me o apoio e a solidariedade masculina e ribatejana do meu pai: «partiu-te só as costelas? Foi pena não te ter partido tamêm as pernas e os braços! Nã te tenho dito já muita vez que nã se há-de andar um home a pôr à frente de gado que bebe água aos almudes?»

A musa de outrora levanta-se da esplanada dando ordem ao marido de «vamos embora» e segue na companhia da amiga, guiando-o atrás, como bando de perus ou patos, a ele de cabeça baixa e aos netos obedientes, rua Capelo Ivens acima. As ancas ocupam agora metade da rua pedonal. Romance de Rentes de Carvalho pousado na mesa, olho-os – triste história de Pedros que se supliciam por próprias mãos e Inêses de pêlo na venta –, e louvo a tradição tauromática do Ribatejo; aquela fatídica tarde de picaria. Bendita vaca e abençoado corno.

 

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