Se não morresse matava-o

Na sala de fumo do aeroporto, um velhote alemão nota nas costas do empregado de limpeza a sigla da firma ISS. Diz que é a mesma da organização extremista árabe. E comenta, levando a mão em navalha ao pescoço “they kill you”. Não faz diferença, digo eu, temos que morrer um dia.

Conto a história velha do homem dos Amiais de Baixo a quem o mal, ou a peste, tinha matado o porco. Encolhendo os ombros, dizia “nã fá mal. S’ele nã morresse matà-vò eu!”

O velhote ri. Depois de alguma conversa, pergunta porque é que aqui anda tudo com ar zangado e chateado, encontrou poucos como eu, que rissem ou sorrissem.

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pra desenjoar da gravitas

ide ler aquele inventoso anúncio e a singular promoção em dia de joyeuse Saint-Valentin no Herdeiro de Aécio.

Se ainda tiver fôlego para coisas cómicas, pode também passar por aqui.

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A justa repartição intergeracional de sacrifícios

 

Se a mim me calhou um semestre ou dois a ouvir Vasco Rato defender a invasão do Iraque (ou FCSH lá entendia que lhe pagava o salário para isso ou simplesmente não quis saber) e como, depois de deposto Sadam e lá instalada a democracia, ocorreria um domino effect democrático que iria contaminar de virtudes plebescitadas todo o médio oriente, é justo que as novas gerações passem um semestre ou outro a ouvir o dr. Passos. Não é apenas o repartir de forma equitativa o sacrifício pelas diferentes gerações; percebe-se melhor o país em que se vive através deste tipo de docência e de ensino.

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Lula, a transparência e o trânsito

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Soube, pelo excelente Ouriquense – ao ler o post Diz não à “superioridade moral da esquerda” – que o dr. Viegas escreveu um artigo agudo e contundente sob a corrupção no Brasil; e sobre as concomitantes tropelias do passar a mão na grana lulista.  Esperemos que este seu abdomínio pela corrupção nas politeias tivesse sido causa que o levou a sair do governo. Extravasando-se-lhe nalgum descuido esta peleja e desamor da corrupção para assuntos nacionais…, fazendo tábua rasa do adágio de nuestros hermanos no hay que mentar la soga en casa del ahorcado; coisa que, muito justificadamente, bem poderia ter sido vista por alguns dos seus ex-colegas de governo como impertinência. Das graves…

Mas é também provável que a sua aversão à prática corrupta nas politeias não seja fobia a roçar o fanatismo,  que este considerar sobre a política do país irmão menos seja “o aquele abraço”  enviado à transparência do além-atlântico país irmão que uma mensagem dirigida ao arquétipo nacional que é “a criada lá de casa” sobre os perigos de votar à esquerda. De criadas, também se faz o eleitorado-marais, de cuja oscilação pode depender a formação dos governos. São importantes. Por um voto se perde, por um se ganha.

Por mim, fiquei elucidado quanto ao sentimento de aversão das elites brasileiras à corrupção lulista em certo jantar (num restaurante de “frutos do mar” curitibano). Um dos convivas, seu opositor, ancião que bem poderia servir de D. Fannuci a um qualquer Mario Puzzo moderno (guarda-roupa actualizado, não usando bigode facies e traços morais similares) quando se abordou o assunto do quanto Lula tinha roubado, abrindo os braços num gesto largo como que alguém que apresenta uma vastidão ou maravilha panorâmica (e o Brasil panorânicamente até na literatura é um país interessante), sorrindo, cabeça atirada para trás, a expressão tipica, «vixe!»

O que Lula teria roubado, não lhe causava indignação; antes uma certa admiração, ou inveja, já que ele só tinha tido à disposição o erário estadual, não o federal, como o ex-presidente. O que o indignava mesmo era a abertura do crédito às classes mais baixas, coisa de que culpava os governos de Lula e Dilma. Especialmente o aumento de carros privados que trazia o trânsito impossível. E aí sim, estava indignado: «qualquer camaradinha aí, não tendo onde cair de morto, vai na concessionária e… já sai dirigindo!»

Logo ali esperei mais melhorias no trânsito brasileiro que na transparência. Por cá, na nossa direita que aponta o dedo a Lula, pressinto o mesmo tipo de indignação e preocupações que vi naquele velho político brasileiro. Nada disto era novo, nem foi imprevisível, descrever as práticas lulistas da propina do passar a mão na grana, é um pouco como afirmar que o mar é azul. Mas também não ajuda grande coisa ao futuro de governos de esquerda negar o óbvio; jurar é amarelo às riscas.

 

 

 

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S. Valentim dos pobres

Sem correntes, tinha começa a nevar, habituado ao clima escandinavo, imaginei que passava. No pico, antes de França, o trânsito parado. Começou a ventar. Já estou tramado (pensei), de neve a gelo, com vento, é enquanto o diabo esfrega o olho. Às tantas, numa travagem mínima, o carro deslizou e foi bater na traseira de um Pajero. O tipo francês, dono do Pajero, ria, que não tinha importância. Ela ria também. Da minha cara, principalmente. «Mas ficou mais sério que bode embarcado.»

Com dinheiro para pouco mais que para o gasóleo, em Carcassone o mais barato dos hotéis, e numa rua arborizada, a mais barata das pizzerias que ofereceu refúgio do frio.  Tinto da casa e pizza a preços mínimos. Passados todos estes anos, hoje ao telefone, volta a falar naquele jantar do dia dos namorados, naquele sítio onde a levei, embaraçado, de carteira a pender para o vazio. Para ela, a cantar canções italianas da infância e a beber tinto barato, continua romântico o daquela vez em Carcassone.

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Ler os outros

Rui Ângelo Araújo, «A nova direita portuguesa, o Correio da Manhã e a aceitação do país» no Os Canhões de Navarone,

( excerto):

 

« Poder-se-ia pensar que havia neste contentamento com o desvelar da negra alma lusa um desejo de correcção, de purga, de construção de um país mais honesto, menos violento, mais justo, mas isso são pensamentos de esquerda. A nova direita portuguesa não escreve no Correio da Manhã nem cita o Correio da Manhã para que acordemos, para que nos vejamos ao espelho e nos envergonhemos com o que somos. Nada disso. Na verdade, a nova direita quer que conheçamos o país para que o aceitemos como é. Tirando um ou outro caso político desenvolvido no jornal, em que a imparcialidade é conveniente ao próprio statu quo da nova direita portuguesa (nos outros casos geralmente cala-se ou veste-se de virgem), e, portanto, é aí conveniente o apelo à justiça, à moral, ao apuramento da espécie, a nova direita não fica realmente indignada com a imoralidade, a injustiça, a violência, os crimes, a crueldade. Adoptam, alguns dos seus espécimes mais tendentes à literatice (como de resto o velho centro-esquerda), a atitude do aristocrata, espreitando das janelas altas do seu solar as ruas enlameadas, levemente horrorizados, mas apenas como introdução teatral à constatação inconsequente de que o país é uma choldra. Nos outros casos é simplesmente social-darwinista — se se sabe do lado certo da evolução. (Neste campo é comum observar-se como alguns jovens direitistas que saem de bairros, zonas ou grupos sociais deprimidos para o sucesso académico, económico ou intelectual se revelam os mais fervorosos na defesa não declarada de que é natural uma luta das espécies e temos portanto de ser duros na nossa vida, nada de mariquices.) »

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Àh,… seus farsolas

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Este velho vosso Soliplass… aqui, em foto impressa que me deu amigo há migalho,  de madeiro às costas em bela floresta nórdica. Que se não fosse tão “mal-vestido de cara” até podia rivalizar com aqueles rapazões estonteantes que posta a Gaffe e as Avenidas.

Que, que por vezes se surpreende com as coisas da Cultura luso-falada-e escrita. Por exemplo, um dia destes, ao escrever sobre a homenagem fúnebre ao pai, e porque é um pouco apressado e multitasking, em vez de pesquisar na página do bolg “manhã de ceifa”, pesquisou no google. Coisa maravilhosa. Só ele, de entre os milhões de falantes do idioma de Camões, louvando as alegrias de uma manhã de ceifa ao lado d’um pai velho, para proteger e cuidar de uma plantação de choupos.

Mais o espanta quando, omnipresente e omnisciente é carinho luso para com a paisagem, a biodiversidade, a natureza, e o património natural. E claro, as gentes do interior.

Um dia desses escrevo-vos aqui um post sobre as alegrias de carregar madeiros às costas. Querem assim pró erudito, bem bibliografado, indo lá atrás ao Homero e Virgílio, ao Lucrécio e ao Boécio, à Kalevala finlandesa, ou pode ser coisa de memória de suor e alombar, contada com o falar do nosso bom povo, solipsista, à Soliplass?

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