Memória de cão

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Portava-se mal ou andava em tropelias e arrastar de tapetes, ouvia-me ralhar. Ameaças de o deixar nas imediações de um restaurante chinês, “dão-te uma passagem no forno, ficas melhor que cabrito!”

Refugiado nos braços da dona a corrobar a história “mas olha só quem vai virar cachorro pururuca… (tostado, segundo o linguajar paranaense), com ar de “não tô nem aí”, em Maio. Tinha três meses e meio.

Água correu, dobrou de peso, sempre brincalhão e afável. Demais: que abala com o primeiro que lhe prometa jogo de bola, que lhe passe de festas a mão no lombo. Outro remédio não fica que ir chamá-lo. Na praia, aqui em Peniche há três semanas, constantemente de prato e caldeira com quem nunca tinha visto mais gordo.

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Passaram três meses desde que viu a dona, nas últimas férias. Estou curioso de ver como reage amanhã ao ir comigo esperá-la ao aeroporto. Se a reconhece pelo caminhar ao longe. Se se ainda adivinha pelo faro, se tem memória de se abandonar no seu abraço.

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Viagem dos reformados

Segunda ou Domingo, partindo de Oslo. Na cozinha exígua eu e um colega preparamos os pratos pedidos. Fritadeiras, fornos, frigoríficos verticais, chapa quente, arca de gelados, um vai-vem de palavras e gestos, os nomes dos pratos, as especificações (sem gluten, camarões extra, uma gema de ovo suplementar num bife tártaro) a decoração final, o tiquet com o número da mesa junto a cada grupo de pratos prontos. Velocidade estonteante nos dias mais atarefados. Lá fora, os passageiros que não vejo mas imagino. Sentados numa das (certamente) salas mais bonitas do mundo; especialmente se à mobília juntarmos a vista que se abre para sul, navegando pelo fjord de Oslo abaixo. É, tipicamente, Segunda ou Domingo, o dia escolhido pelos reformados para a curta viajem de dois dias até à Alemanha e regresso. Chamamos-lhe, pensjonistenes tur. São estes dias de trabalho (só falo por mim) os mais agradáveis. Confeccionar os pratos para aquela diversidade de gente grisalha, a pele enrugada e movimentos tolhidos acusando o peso do tempo, imaginar-lhes o prazer de juntar a boa comida ao conforto da sala e à vista magnífica.

Pouca coisa, o tempero, o panado de oiro estaladiço que esconde o filet de  linguado, o polvilhar da pimenta e do sal sobre a cor viva da carne do bife tártaro e da gema de ovo, o raminho de funcho entre as patas do lagostim, os pingos de óleo com ervas trituradas a salpicar a mayonese e o fundo do prato. Pouca coisa se lhes devo principalmente a eles a construção desta sociedade justa e igualitária que pude ver e testemunhar. Na história da humanidade (ou da infâmia dela), pouco menos que um milagre.

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Das coisas variadas

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Amsterdão, agora. Releituras. O velho Corte na Aldeia de Francisco Rodrigues Lobo e um dos primeiros de T. C. Boyle; East is East.

Tisnasdo do sol, bruteza de calhau, braços e mãos feridos (a missão continua), refinadíssmo cultor de letras.

Ambição cá de casa, nisto de blogs e de leituras, fugir de classificação como o dianho de cruz, passar por etiquetas e capelas e modas como o cão pla vinha vindimada.

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Puta de vidinha triste

Dia de viagem, na estação da Ribeira de Santarém, tomo um café. O telefone esperto dá sinal de rede, o ponto de interrogação se quero ligar a uma rede disponível. Passo a lista… a primeira rede, intitulada “KeresWifiFazComoEu”. Imagino a puta de vidinha triste do bicho intitulante.

Há cerca de um ano em Oslo um dos directores da companhia de navegação onde trabalho oferecia-me um Tag Heuer que, dizem os colegas, custa cerca de dois mil euros. Agradecendo a minha fidelidade por vinte e cinco anos de serviço. Não lho pude dizer, com receio de ofender os colegas portugueses presentes, mas murmurei cá cos botões, quem te deveria pagar por cá ter servido era eu. Pelo exílio permitido e pago. Da portuguesa puta de vidinha triste.

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De tílias e outras

Quando saio do Club House, o empregado, que no alpendre enche de ar os pulmões, adopta subitamente um tom familiar para me dar conta de que lá fora cheira a tília.

Não costumo corresponder a estas tentativas de intimidade, quer por arreigada misantropia, quer porque geralmente elas têm origem em interlocutores que partem do princípio totalitarista de que qualquer um está disposto a partilhar (ou discutir) a alegria de um golo ou a frustração de uma derrota desportiva. Mas um barman que fala no cheiro das tílias merece outro trato. (…)

Rui Ângelo Araújo no Canhões de Navarone

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a mesma frase

É preciso voltar à mesma frase: “Que parte é que não percebeu? Não há dinheiro“”

& etc…

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Forquilhas por boas-vindas

 

Man and woman with stern expession stand side-by-side. The man holds a pitch fork and wears glasses.

O meu avô materno, homem sensível e púdico, de quem se acreditaria terem-lhe aparecido em casa quatro filhas por encomenda postal, ao pedido do veterinário de o ajudar a amparar o bezerro nascituro, para não ter as mãos em contacto com aquele ser pegajoso, pegou numa forquilha de ferro. E com ela por berço se preparava para lhe dar as boas-vindas ao mundo. Até que o veterinário escandalizado o mandou sumir-se dali e chamar antes a mulher.

Bibliófilo e bibliómano, que me lembre, fui uma vez à feira do livro. Mais uma passou sem que lá pusesse os calcanhos. Queimado do sol, musculado, os braços arranhados, aquela gente dos livros, grave, pálida e de ombros estreitinhos, se pudesse, recebia-me também com uma forquilha. Como aquele caso de Ana Gomes trazendo ao congresso o tema da corrupção há coisas, e seres, que simplesmente não são bem-vindos.

Umas vezes a coisa diverte. Outras, simplesmente, chateia. Valem-me livrarias e afarrabistas no norte da Europa onde sou cliente grato e o tratamento é amistoso. E não é preciso ir com o fato (ou linguagem) do Domingo.

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